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Saúde mental é uma prioridade inegável, mas não é emocional muita coisa que aflige nossa dinâmica diária. 

Doenças emocionais existem, mas é necessário observar o biológico, o social e o psíquico (alma, mente, emoção, sentimento, hábitos ou comportamento) antes de cravar um diagnóstico ou um autodiagnóstico na sua vida.

Comecemos pelo pior: evite o autodiagnóstico, ele não ajuda você, seu bem estar ou o profissional que pode efetuar um diagnóstico adequado. 

Nem terei a pretensão de dizer: não faça o autodiagnóstico pois seria enxugar gelo, principalmente quando acessamos facilmente às informações disponíveis na internet.

Contudo, evite ao máximo o autodiagnóstico, nem tudo é emocional (assim como nem tudo é só biológico ou neurobiológico) e um diagnóstico auto proferido não ajuda, pelo contrário, atrapalha muito. 

Atrapalha você que passa a acreditar que pode se automedicar ou a seguir orientações de pessoas, com intenções duvidosas, que oferecerão uma fórmula milagrosa para “esse diagnóstico”. 

Atrapalha o profissional sério, que investigará os sintomas, hábitos e terá que “convencer” você de outro diagnóstico levando mais tempo para um “diagnóstico diferencial”.

O diagnóstico pode e deve ser discutido, não estou dizendo para “aceitar tudo”, mas um diagnóstico diferencial debatido com outro profissional raramente consideraria uma opinião. 

É desgastante esse debate ou desconstrução se feita com alguém de opinião forte (teimoso/teimosa) e que, por exemplo, tem como base: o grupo da internet, percebe?

Para ficar claro, em uma discussão de diagnóstico (não de autodiagnóstico) não se debate opiniões, mas o prognóstico, diagnóstico, a sintomatologia, etiologia, prevalência, o comportamento, a função, a evolução… não é um “eu acho que”.

Portanto, troque esse hábito ruim do autodiagnóstico, por um que seja um pouco melhor, como um diário de sintomas que auxiliarão o seu profissional de saúde a traçar um perfil de contexto e que também ajudará você a contar a história, na hora que for se consultar.

E se perceber que é a hora de procurar o profissional, procure, não deixe “piorar”.

Siga no modelo de observar, não de auto avaliar, principalmente porque um diagnóstico não deveria ser feito de maneira tão displicente. Observar é: tive dor no osso do meio da mão direita. Tive suadouro. Tive taquicardia no dia x, na parte da manhã e depois 15 dias, no dia x no mesmo dia, período da manhã.

Dito isso, é bastante comum, na clínica, o paciente explicar uma série de sintomas e fechar a explicação com: é emocional

E esse é emocional refere-se a origem, não a um sintoma, mas o “descontrole” era emocional e não físico… fica confuso, então ao criar o hábito de um diário de sintomas, a investigação pode ser mais assertiva.

Claro, não é por mal, muitas vezes essas listas de sintomas e o fechamento do é emocional acontecem porque se ouviu (não escutou) aquela reportagem sobre um determinado tema, porque foi a orientação de um parente, amigo ou influenciador (não só o de internet) ou porque ela/ele leu alguns artigos semelhantes a este, disponíveis online.

O fato é que somos uma máquina biológica complexa, indivíduos complicados em uma sociedade mutável que influencia nossas vidas e que é influenciada (a vida) por nossas ações e “pessoinhas” bastante intrincadas em suas comunicações, crenças, hábitos e comportamentos. 

Somos sistemas, dentro de sistemas e que muitas vezes misturam sintonias, conceitos e outras coisas (sistemas) em uma ânsia por soluções, explicações que nem sempre são tão rápidas para serem encontradas.

Doenças emocionais existem, são conhecidas como psicossomáticas, e é uma área estudada pela psicologia e pela psicanálise, pela medicina – psiquiatria, clínica geral e pela neurociência e também por curiosos e crentes (que acreditam) em inúmeras, diversas e nem sempre prováveis teorias.

Nesse sentido, sempre que começamos a falar de doenças, transtornos ou comportamentos, precisamos observar suas relações.

Investigar não de maneira superficial e apressada, pois pode-se cometer erros, prejudicar e perder um tempo precioso para o tratamento.

O termo psicossomático, após séculos de estruturação, surgiu no século passado, por meio de Heinroth, com a criação das expressões psicossomática e somatopsíquica [4] e de lá para cá, caiu na boca do povo, sendo utilizado das maneiras mais incorretas (com boas intenções) e das mais diversas, até corretamente; o que não justifica tanta coisa fechar com um: é emocional.

Dica 1: Não é emocional se tem explicação física

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Parece absurda essa dica, mas o fato é que investigar sintomas de doenças físicas não é tão simples quanto alguns médicos fazem parecer (desculpe se você é um/uma médico(a) excelente e estiver lendo isso). 

Exames clínicos precisam ser feitos para se ter uma visão ampla. Seu tratamento pode ser demorado e envolve mudanças de hábitos muitas vezes – o que nem sempre acontece. Causas ambientais também interferem e há diferenças no metabolismo que precisam ser consideradas.

Comece pelo básico, investigue também o que não é básico. Observe sintomas, relate-os. Você pode solicitar análises clínicas mais completas também, dependendo do médico, plano ou tipo de consulta.

Dica 2: Compare sempre causas biológicas e sociais (ambientais)

Pressão alta, alergia, problemas digestivos, dor de cabeça… quando fui escrever este artigo trombei com um outro que era: X doenças que podem ter origens emocionais, a lista incluía essas que citei no início do parágrafo até Câncer, Doenças metabólicas, do coração… 

 O título já é uma pista: podem ter, e claro, quando se analisa a primeira coisa é: “pode não ter”.

Um exemplo? Você percebe que está mais cansada(o), começa a ter dores de cabeça todos os dias próximo às 18 horas que é a hora que encerra o seu trabalho em home-office, dorme mal, e no dia seguinte a mesma coisa, só que a dor de cabeça está mais forte. 

Quando questionado na clínica, por um psicólogo ou psicóloga (pode ser aqui do psico.online, por exemplo) você inclusive comenta que está tendo uma reforma que o dia todo, ao fundo, além da música que você ouve e das reuniões acaloradas no trabalho, fica com um bate estaca, furadeira, marretas.

Você está irritado(a) e a dor de cabeça, no terceiro dia tá muito maior, pois na irritação você ingeriu mais chocolate e álcool para relaxar. Vai ao médico, ele faz exames, você: tenho enxaqueca, pois viu na internet que álcool e chocolate potencializam a dor de cabeça. O médico diz: os exames estão ok, mas você insiste. 

Então, o psicólogo, atendo ao hábito sugere: use tampões auditivos e tente parar com o celular próximo ao horário de dormir. Você aumenta seu sono de 4 horas para 5, depois para 6 e depois para 8 horas. E todos os problemas desaparecem. “Curei a enxaqueca”.

Não. Você adquiriu um âmbito que estava te causando cansaço e por consequência menor tolerância e paciência, o que gerava um aumento gradativo de stress no trabalho. A reforma, fazia você já estressado, ainda ouvir um zum zum em pano de fundo que culminou com dores de cabeça no final do dia (pois você estava se desgastando mais do que seu corpo aguentava). 

Nesse ritmo, o momento de descanso piorava a dor de cabeça, pois o álcool e o chocolate alteravam o fluxo sanguíneo e a pressão arterial. A causa, nesse caso, era ambiental, que tinha sintomas físicos. Poderia ser outra coisa? Como o exemplo de texto ruim do começo, poderia ter origem emocional ou não, física ou não, social e ambiental ou não.

Por isso é importante comparar. Doenças metabólicas podem ter sintomas semelhantes, em momentos diferentes. Você precisa se observar.

Dica 3: Uma coisa não precisa estar ligada a outra, assim como também não precisa ser única.

Esta última dica é mais difícil de explicar, mas um determinado problema não é emocional, assim como não é racional apenas, pois você não pode desassociar o seu emocional do seu racional. 

Muitas vezes para facilitar a explicação de algo, separamos as coisas, dividimos e a investigamos em contextos específicos, mas nenhum ser humano saudável se verá livre do seu emocional ou do seu racional ou será só um ou outro.

O mesmo acontece para os modelos que envolvem o ambiente, mas vamos descartando as hipóteses inválidas. O problema é quando elas param e voltam e alteram a frequência.

Voltemos ao exemplo da dica 2: uma furadeira, 8 horas ligada por dia, nos últimos 15 dias, sem proteção auricular, zunindo na hora que você precisa se concentrar e parando na hora do almoço, pode ser uma causa ambiental que influencia no seu emocional e no seu físico.

Você vai ao médico e ao psicólogo e a furadeira para, mas você descobre uma inflamação dentária, que se investigada, começou há 2 dias e pode causar, problemas de concentração e dores de cabeça. 

Onde você atribuiria a causa? Ela pode estar ligada como pode não estar ligada. E assim, o diagnóstico e a doença autodiagnostica recebem a fama, mas a mudança e o hábito fariam toda a diferença.

Finalizando essa dica de que não é emocional

Espero que você tenha gostado do texto, se gostou, vote nele aqui embaixo nas estrelinhas. Deixe seu comentário que vou ler e responder o mais rapidamente possível. 

Minha dica final é: questione, pergunte, procure profissionais e avalie os profissionais. Escute você mesmo e as suas conclusões e observações, mas não tome atitudes precipitadas.

O autodiagnóstico é prejudicial, atribuir tudo para o é emocional também. Toda vez que seguimos no caminho de extremos vamos lidar com as consequências extremas também. 

Marque uma ou umas sessões com nossos profissionais. Investigue. 

E espero que encontre logo uma resposta para esse problema que você está vendo como emocional, afinal, não é emocional só, mas pode ser também. Vem conversar com a gente para descobrirmos juntos.

Até a próxima.

Aprofundando no assunto, bibliografia, sobre é emocional (ou não)

[1] Ávila, Lazslo Antonio. (2012). O corpo, a subjetividade e a psicossomática. Tempo psicanalitico, 44(1), 51-69. Recuperado em 30 de julho de 2021, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-48382012000100004&lng=pt&tlng=pt.

[2] Capitão, Cláudio Garcia, & Carvalho, Érica Bonfá. (2006). Psicossomática: duas abordagens de um mesmo problema. Psic: revista da Vetor Editora, 7(2), 21-29. Recuperado em 30 de julho de 2021, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1676-73142006000200004&lng=pt&tlng=pt.[3] Cerchiari, Ednéia Albino Nunes Psicossomática um estudo histórico e epistemológico. Psicologia: Ciência e Profissão [online]. 2000, v. 20, n. 4 [Acessado 30 Julho 2021] , pp. 64-79. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S1414-98932000000400008>. Epub 11 Set 2012. ISSN 1982-3703. https://doi.org/10.1590/S1414-98932000000400008.

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