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Minha mãe me machuca com palavras. A minha mãe disse que me odeia, disse que se pudesse não teria me feito ou a minha mãe disse que eu não presto.

A minha mãe disse que preferia ter abortado. 🙁

Esse é um assunto que chegou há pouco na Caixa de Segredos e resolvemos ampliar um pouco esse contexto antes de falar propriamente do assunto. A minha mãe disse que… 

Quando ela diz essas palavras duras, que machucam e ficam marcadas lá no fundo do peito, martelando na nossa cabeça, é algo que precisamos muito entender. Entender como elas nos afetam. O que elas querem dizer. E lembrar que tem muito mais envolvido nessa explosão, além daquilo que foi dito.

Inclusive, a  gente diz que não, mas ouvimos muito do que ela fala (até quando não ouvimos). Se somos adolescentes então, claro, vamos contestá-la: ela era até bem pouco tempo tudo e agora parece que não sabe de nada!

Mas sabia que a vida toda muda e que, aos poucos, vemos coisas que não víamos?

Também são palavras duras aquelas que já dissemos para ela: “te odeio”, “não queria que você fosse minha mãe”, “prefiro a mãe de…” concorda?

Meu filho ou filha disse que… poderia ser o tema deste texto. Vamos ilustrar com frases conhecidas isso tudo? Já cantou Renato Russo: “são crianças como você, o que você vai ser, quando você crescer?”…

Há um provérbio também que diz o seguinte:

“há três coisas que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida”.

Não é sempre que dá para “desdizer”. Vamos unindo os pontos: são crianças como você que falam palavras que não dá para desdizer….

E também há outra frase, que vezes é atribuída a Sigmund Freud e outras a Lise Bourbeau: “O homem é escravo do que fala e dono do que cala. Quando Pedro me fala de João, sei mais de Pedro do que de João”.

E qual a relação disso tudo?

A ação envolvida no falar e ouvir. Quando um filho ou filha diz que “minha mãe me disse que” a primeira coisa que me pergunto é: e você disse ou fez o que para ela ter dito ou feito isso? Vamos ver as relações.

A comédia privada (e não entenda isso como sátira ou como aquelas comédias que vemos na tv; estou falando do gênero literário) daquela relação entre pais e filhos que muitas vezes tem espinhos, farpas, rancores, mas também tem amores, convivência e forte laço simbólico e físico; seja essa relação explicada biológica, psíquica ou social.

E que faz com que tenhamos que conviver por anos, expressando – de modo doloroso ou afetivo – aquilo que sentimos e quando vemos: puft… falamos as vezes querendo, as vezes não querendo.

Alguém importante disse uma vez: somos responsáveis pelo que falamos, mas não podemos garantir como somos ouvidos”.

A primeira coisa que devemos ter em mente quando ouvimos essa frase é tentar entender, sem a carga emocional, o que está atrelado a ela. Se é o cansaço de anos e anos de tentar ajustar uma relação ou se é apenas uma explosão momentânea.

Nem sempre controlamos a nossa língua, dizer para alguém: morra! Não significa, ou não deveria significar, que o desejo seja efetivo ou que levaremos a cabo essa palavra por mais raiva que estejamos sentindo naquele instante.

Há um espaço entre o falar e o agir, onde devemos incluir o pensar.

Tá, é muito mais fácil falar do que fazer. Eu mesmo brigo com minha mãe muitas vezes e ela briga comigo tanto quanto ou até mais, e sim, já falamos coisas que machucaram. Mas vale a pena pensar, fora do calor da emoção, o que está acontecendo?

Como chegamos nesse ponto?

Tem muito mais coisas que ela diz ou que eu estou fazendo quando ela me diz isso. Qual a expectativa dela em relação a mim e qual a minha expectativa em relação a ela?

Quando uma mãe chega ao ponto de dizer palavras desse porte é que aquela carga de emoção está atingindo o limite e puft.. ela fala. Mas o que ela disse (e que não pode voltar atrás) era realmente o que ela queria dizer?

E supondo que seja, o que fazer em relação a isso? Por que ela disse isso e qual a minha parte dessa frase? Fiz por merecê-la? Não? Por que não?

Não há uma resposta pronta para esse conflito que alguns chamam de conflitos de geração (pois aquilo que ela aprendeu durante anos mudou e o que você mostra e vê é outra coisa).

Também é preciso considerar como foi se construindo essa explosão. Um pai ausente pode significar trabalho e responsabilidade em dobro para a mãe em um trabalho de 24 horas por 7 dias e sem férias ou abono.

Vamos pensar e tentar entender se o que ela está dizendo tem mais relação com você ou com ela? “Minha mãe disse”

upset diverse women near wall
Photo by Liza Summer on Pexels.com

Olha, querida leitora (ou querido leitor), o melhor a se fazer após uma briga com palavras como essas é ponderar. Observar por vários e diferentes ângulos tudo e só então, depois de um tempo, chegar a uma resposta.

Sabe, tem uma outra história japonesa, que conta sobre a batalha de dois samurais. Samurais são aqueles guerreiros que se preparam uma vida inteira para serem exímios em sua tarefa, são guerreiros de valor, formidáveis e muito bem treinados.

Então, dois samurais vão batalhar, mas no momento da luta um cospe na cara do outro. Sabe o que faz o que recebeu a cuspida na cara? Retira-se.

Retira-se pois se enfrentasse seu oponente naquele momento ele não seria o melhor, sua ira inundaria seu corpo de hormônios que o deixariam vulnerável e lento.

Sua vitória seria maculada por uma raiva e sua excelência seria prejudicada.

Pense nisso. Pense em tudo isso. Se sua mãe disse… ouça e analise. Se achar que não consegue fazer esse exercício sozinha ou sozinho, procure por um psicólogo e leve esse assunto, o profissional o auxiliará.

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Sobre os Autores do Post:

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Psicólogo CRP 06/154.661 - Formado Psicologia e em Administração com ênfase em Marketing, workaholic geek que respira tecnologia, pesquisador e mestrando em tecnologias da inteligência e design digital. É um dos fundadores do Psico.Online e do MeuPsicoOnline.com.br

12 comentários em “Minha mãe disse que… palavras que machucam.

    1. Olá Amelia, muito obrigado pelo seu relato e pela confiança em compartilhar conosco sua história.
      Sinto muito por ele e isso não deveria acontecer, principalmente vindo de alguém que deveria nos acolher neste mundo. Acreditamos que seja possível mudar essa situação, compreender que muito do que foi te falado não é verdade e que essa voz que te puxa para baixo pode ser mudada, resignificada. Imagina que o que ela dizia, falava mais dela do que de você e nesse ponto, a primeira etapa é buscar por ajuda. Ainda é possível, você não tem que se sentir assim o tempo todo e não, ela não tem razão e nem sentido em falar uma coisa dessas. No mais, esperamos que um processo terapeutico (de cura) interior poderá auxiliar nesse caso. Agende suas sessões, vamos juntas perceber que há muito a ser feito a partir deste 32 anos e que daqui para frente, o seu caminho pode ser outro.

      Com carinho,
      Equipe de Atendimento
      Psico.Online

  1. Minha mãe sempre teve felicidade em me ofender. [moderado para manter a privacidade]
    Mas eu estou morta. Não acredito na vida, em viver….

    1. Olá Orlinda, sinto muito por ler seu relato e agradeço muito a sua confiança em fazê-lo. Acabei cortando boa parte dele para poder deixar público, preocupado com sua privacidade. Foram tantas coisas e tão fortes que se torna muito delicado responder via mensagem, correndo o risco de ser interpretado de maneira inadequada. O que posso dizer por aqui: se tiver oportunidade, agende algumas sessões com um psicólogo ou uma psicóloga que possam conversar com você, por vídeo, eu mesmo estou a disposição e todos os psicólogos do site. Seria muito importante que você tivesse um espaço para você falar, para tirar muita mágoa, muita dor, muita tristeza e se precisar gritar, deixar o grito que você trouxe na mensagem sair. Você não é igual a ninguém, você é você mesma e precisa desse espaço para olhar para isso.
      Espero, verdadeiramente, que esta mensagem chegue até você e a encontre melhor. Que consiga cuidar da depressão, da dependência e dessa relação conflituosa que você descreveu. Você falou que já faz tratamento, leve isso ao profissional, a psicoterapia poderá auxiliá-la nesse sentido.

      Sinto muito por não poder fazer mais por meio do comentário no post, mas estamos a sua disposição caso queira entrar em contato.

      Atenciosamente,
      Raul de Oliveira
      Psicólogo
      Psico.Online

  2. Minha mãe disse: “que eu não existo par ela e que não vai mais se importar comigo” Sinto que ela só se importa com o meu irmão!

    1. Olá Mariana, sinto muito por você ter ouvido isso da sua mãe. Tente observar se foi apenas uma explosão de cansaço ou um momento de um erro humano, algumas vezes, o que acontece pode ser nesse sentido. Também sugeriria que você buscasse alguém, uma coordenadora da sua escola, por exemplo, para conversar.

  3. *** [trecho moderado para manter a privacidade]

    Oi me chamou Breno [*****] e moro com minha vó
    Ela me usa pra trabalhar pra ela me paga [***] alguém pode me ajudar se alguém pode chamar nesse número por favor.

    1. Olá Geise, vamos moderar o seu comentário para manter sua privacidade tudo bem?
      Qual a sua idade? Chama a gente nas redes sociais e diga que fez esse comentário, vamos te ouvir.
      Ainda assim, muita gente fala coisas que se arrepende depois em momentos que estão com problemas. Não sei qual o caso, mas seria importante entender o que está acontecendo entre vocês.
      Fique bem.
      Equipe de Atendimento.
      Psico.Online

  4. Gostaria que minha mãe me dissesse isso, assim ficaria quites a ela. Eu a odeio e acho que não é porque é família que tem que amar e dar respeito. Respeito e amor é dado por quem merece.

Gostaríamos de escutar o que você tem a dizer.