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Antigamente bastava ligar a TV ou passar por uma banca de jornal para sermos bombardeados pessoas com corpos muito magros ou musculosos, aparentando curtir o melhor da vida, sempre com um salto alto e a make intacta em uma formatação de “humanidade” ou eterno bom humor.

Se você assistia novelas nos anos 90 e 00 então vai se recordar que existia pouca representatividade, eram quase sempre atrizes brancas, magras, de classe alta, com empregadas (geralmente os únicos papéis de negros) que serviam desde o café da manhã até a janta e eram tratados “como se fossem da família”, com um núcleo pobre barraqueiro e várias outros estereótipos problemáticos, mas que eram naturalizados na época, ou seja, esses estereótipos não eram questionados e eram tratados como algo comum e natural.

A problemática é que aquele jeito, junto com as revistas, foi o principal meio de comunicação e determinava as tendências e padrões que toda uma geração de pessoas que a  seguia. 

Desde aquela época, ainda se busca formas de ser feliz através de um corpo malhado, um amor incrível e, quem sabe um dia, uma mansão.

Afinal, “saúde é o que interessa, o resto não tem pressa”. Não cabe mais, não é?

Basta olhar para algumas capas de revista para se lembrar disso…

Corpo em forma na revista Boa Forma
Revista Caras - E o corpo?

A chegada da internet

Com a internet deixamos de ser reféns do que a TV ou as revistas queriam nos vender.

Começamos a ter mais voz, mostrar e buscar temas que sejam dos nossos interesses.

Editoras desapareceram, canais de TV. Encontramos pessoas que pensam e agem como nós.

Com a chegada dos influencers, o posto de famoso começou a ser mais alcançável para pessoas fora dos padrões de ator global (ou globais e mediáticos).

Isso foi uma ótima transformação e nos deu mais poder para modificar o que a indústria vendia – porém, com as redes sociais, estamos a apenas um clique de distância de vidas perfeitas!

Será mesmo?

Desde a época das revistas somos confrontadas com realidades pouco tangíveis e tendemos a odiar nosso corpo, mudar nossa personalidade para conquistar um homem, recorrer a intervenções estéticas para sermos aceitas, amadas e desejadas.

Alcançar um padrão de mulher, que muitas vezes tem uma equipe inteira a seu dispor para representar um papel.

E isso se estendeu para a internet.

Agora nos sentimos mais íntimas de quem somos fãs, afinal, acompanhamos a vida dos ídolos de pertinho.

Acreditamos realmente que sabemos tudo sobre eles e que eles nos mostram tudo! “Sem cortes, recortes ou make intacta.

E continuamos querendo ser como os sorrisos, a boa forma, o bom humor estampado no feed do Instagram ou nos vídeos do tiktok ou YouTube.

Afinal os admiramos, queremos aquela vida perfeita que vemos online e é aí que entra a publicidade e propaganda com as suas propostas de marketing sutis.

São propagandas que nos dizem que precisamos melhorar algo – isso de forma indireta!

A blogueira não vai dizer: “Você precisa emagrecer!”, ela vai seguir um caminho mais ou menos assim: Dizer que se sente gorda, que exagerou na comida do fim de semana e que precisa urgente de um detox, mas ela faz isso mostrando uma barriga chapada que pouquíssimas pessoas tem e muitas vezes foi alcançada com cirurgia.

Daí você começa a pensar que tem algo errado com você, porque se aquilo é gordura, você realmente deve estar horrorosa!

E nem estamos falando de filtros, equipes de produção, etc…

Depois de um tempo mostrando uma alimentação digna de novela das nove (geralmente patrocinada por alguma marca de comida fitness) ela vai explicando o empenho dela em ter uma vida saudável e pá: tá lá o chá, o shake, a pílula, o creme, a cinta… enfim, diversos produtos que digam: isso mudou minha vida e emagreci.

Muitas vezes um ou outro influencer assume intervenções cirúrgicas como Lipo LED e seguem um caminho muito parecido para te convencer a fazer aquilo, isso porque “quem sabe” lucram com cada arrasta para cima ou com permutas.

Esse é o trabalho delas! Influenciar!

Você, que depois de dias a está acompanhando e outras que fazem o mesmo, já internalizou que aquilo é o corpo certo, que seu corpo está errado e que você PRECISA desses produtos.

Precisa?

Além da sensação que não vai conseguir sozinha pode surgir também culpas que te levam a descontar na comida e gerar um ciclo sem fim de: “eu sou incapaz de ser saudável e feliz, queria ser como ela, mas não sou ninguém”.

O episódio de compulsão alimentar é o sintoma principal, por exemplo, da Bulimia Nervosa e costuma surgir no decorrer de uma dieta para emagrecer. [1]

Distorcemos a ideia de saúde e sucesso, achando que isso tem a ver com o número que aparece na balança e a casa com piscina. Daí em diante a autoestima é só ladeira abaixo!

E não estou aqui para culpar as ou os influencers que fazem isso – até porque a maioria está tão perdida e refém quanto nós nessa busca da felicidade e do “corpo perfeito”.

Muitas delas se tornam vítimas fatais desse processo em um looping de armadilhas do desejo.

Trouxe tudo isso para convidar vocês para refletirem sobre como o meio social (e principalmente o seu Instagram) tem feito você sentir que deveria fazer parte de um padrão para ser feliz.

Claro que você pode querer fazer parte de um padrão por N outros motivos, mas não pode achar que é isso que vai garantir a felicidade, porque não é!

Existem influencers que agregam muito valor e falam sobre corpos reais e a real autoestima, porém ainda existem muitas barreiras para que elas tenham voz, afinal elas não vendem a solução da vida em uma caixinha de chá ou passe de mágica! Consequentemente, elas fazem menos sucesso e são muito mais julgadas.

No fim, a dica para você é: filtre muito bem o que você consome.

Perceba o caminho influenciado por aqueles que você admira. Questione como foi que ele trilhou esse percurso para te falar sobre aquele produto ou serviço e entenda que isso é um conjunto e tem muita propaganda e promessas milagrosas que podem te levar a caminhos perigosos e enriquecer outro alguém.

Se está odiando seu corpo e a si mesma, busque ajuda profissional, existem diversas psicólogas que podem te ajudar com isso.

Ah, e não esquece de escrever nos comentários sua opinião sobre o tema. Vou adorar saber o que você achou!

Confira também a bibliografia abaixo

[1] Appolinário, José Carlos e Claudino, Angélica MTranstornos alimentares. Brazilian Journal of Psychiatry [online]. 2000, v. 22, suppl 2 [Acessado 24 Setembro 2021] , pp. 28-31. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S1516-44462000000600008. Epub 24 Jan 2001. ISSN 1809-452X. https://doi.org/10.1590/S1516-44462000000600008.

[2] https://brasil.elpais.com/cultura/2021-09-23/linda-evangelista-revela-que-sofre-depressao-profunda-apos-tratamento-cosmetico-motivo-de-seu-sumico.html?ssm=FB_BR_CM&utm_source=Facebook&fbclid=IwAR0vqBA-hIXyRkkUkAFrVRf5CqtRQFVkC6kCJnApaoRw4TWvQ6kcRnXBvi4#Echobox=1632527781-1

[3] https://www.ted.com/talks/eli_pariser_beware_online_filter_bubbles?utm_campaign=tedspread&utm_medium=referral&utm_source=tedcomshare

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Sobre os Autores do Post:

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CRP 06/126.802 - Formada em psicologia pela Universidade Paulista, co-fundadora do Teramor, projeto que visa apoiar mulheres que experienciaram relacionamentos abusivos, estimulando o empoderamento e amor próprio.
Sigo a abordagem fenomenológica existencial, por isso meu foco é na compreensão da existência de cada um baseando em suas vivências e convicções. Com isso consigo te ajudar a encontrar o sentido das coisas e de sua vida, consequentemente você encontra as possíveis soluções para suas questões e problemas. Entendo que cada ser Humano é único e deve ser tratado como tal, por isso não há receita pronta para resolver os problemas, é uma construção e estou aqui para te ajudar no processo!

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