Homem, sexualidade e dúvidas: 12 questões sobre o tema.

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Sumário

Homem e sexualidade é o tema principal deste post que inicialmente tinha o título Professor, Você é Gay? ou Sou Macho Pra C****…. – mas que, passados quatro anos, achamos que seria interessante revisitá-lo.

Professor, você é gay? Foi a pergunta que desencadeou a viralização do post do professor Vitor Fernandes no Facebook com quase 30 mil compartilhamentos e mais de 6,4 mil comentários em 2016 e que ainda está disponível – veja a transcrição do texto no final deste post caso não queira ir para o Facebook.

O assunto já foi debatido em vários veículos de comunicação e fez muita gente pensar, questionar, apoiar ou criticar a postura do professor com a sua argumentação. Nós gostamos, e por isso, continuamos o assunto.

Na maioria dos comentários o apoio foi incondicional, dado que a resposta se mostrou eficiente para debater a questão e também para demonstrar o quanto a nossa sociedade está distante de entender o próximo.

Melhor: o quanto que a nossa sociedade tenta entender, a partir de sinais não muito claros o próximo e as divergências que geram uma certa confusão.

A turma do professor Vitor era composta de adolescentes, que tinham mais ou menos 15 anos e a formação a partir do contexto social e familiar contemporâneo.

Ora, estamos inseridos em uma sociedade que é violenta, misógina, sexista, preconceituosa, discriminante, intolerante, ignorante e tantos outros adjetivos ruins.

Mas não podemos esquecer que também somos uma sociedade diversa, plural, em ebolição, com muita gente boa e que tem ansia por conhecimento e vontade de mudar.

Gente como a gente que ainda lida desajeitadamente com críticas, elogios e diferenças. Gente que algumas vezes se cansou de tentar entender, e se sente perdida num mundo cheio de informações contraditórias.

O que não era o caso dos adolescentes do professor Vitor e nem do próprio.

Nesse caso foi uma oportunidade para questionarem; e claro, ainda replicarem muito do ambiente que os cerca, seja ele machista, feminista, hétero, homofóbico, liberal, neoliberal, de esquerda, de direita ou centrão.

Em todos os sentidos dessa discussão a educação, seja ela sexual, social, política com ou sem partido (isso é outro tópico para outra discussão) é o caminho para iniciar futuros melhores e inclusivos onde as pessoas não repliquem, mas pensem com o mínimo de pré-conceito e criticidade.

Mas por que tocamos nesse assunto?

Em vários momentos, também já falamos para muitas pessoas que:

Entender de assuntos do mundo feminino, estudar psicologia, ser sensível, chorar, entrar em contato com seus sentimentos ou ter determinada postura, profissão, gosto não faz desse ser humano gay, homossexual, hétero e, usando as palavras do professor flamenguista ou botafoguense.

Não é como pertencer a um time ou outro, pois não existe time, ou não deveria existir meninos contra meninas, depois de uma certa fase do desenvolvimento humano.

O que existe são pessoas. E quando o assunto está relacionado a essas pessoas ele é complexo e diverso.

Professor, você é gay? Doutor, você é gay? Fulano, Beltrano, Ciclano, você é gay? As argumentações descritas no post foram, segundo a ótica do desconhecido – e esse termo é o sinônimo de ignorante, aquele que ignora algo, os seguintes:

  1. Homem que é homem não rejeita mulher.
  2. Homem que é homem não coloca a mão na cintura.
  3. Homem que é homem fala das mulheres que “pega”, “prova” que é homem através de fotos com mulheres.
  4. Professor hétero não é simpático. Simpatia não é característica masculina.
  5. Homem que é homem não é vaidoso.
  6. Homem que é homem nega com veemência a homossexualidade, como se fosse um crime. E é obvio que homem de verdade não debate esses assuntos, muito menos usando a si mesmo como exemplo.
  7. Homem que é homem é machista.
  8. Homem de verdade casa antes dos 30 e tem filhos antes disso.

Nós aqui acrescentaríamos ainda, nesses mitos do que é ser homem hoje em dia:

  1. Homem que é homem não deve saber o que é scarpin, rímel, base ou gloss. Entender do universo feminino, imagina!
  2. Homem que é homem não chora
  3. Homem que é homem não usa saia
  4. Homem que é homem só entende cores primárias.
  5. Homem que é homem não cai nesse estereotipo.

E se a pergunta ao professor tivesse sido diferente como: professor, você é macho? Professor, você é homem? Professor, você é um ser humano? Mas foi professor, você é gay?

O detalhe desse questionamento não é a curiosidade, é o quanto estamos dispostos a falar sobre o tema, a informar ou a educar?

A pergunta que deveria vir junto, para aquecer a discussão deveria ser: qual diferença faz na sua vida que o outro seja isso ou aquilo. O que importa se ele é ou está de alguma forma se você não trabalha com aquilo, não vai ajudar ou ainda só vai reforçar um rótulo?

Já pensou?

Aliás, me lembrei de um poema que cabe bem aqui, e é coisa de homem, letrado, que vai pensar um pouco, espera aí. Estou inserido em que lugar e qual é o meu papel nessa história?

Tem cara que acha que ser macho
É andar berrando aos quatro ventos
É aparentar não ser de ninguém um capacho
É fugir de si e dos sentimentos…
Gozado, como o mundo está cheio de macho!
Gente que espezinha
Gente que humilha
E faz-se rei com coroas de esculachos
E usa como tapete a própria família…
Macho, ouça isto ao pé do ouvido:
Por que você não ouve dos seus filhos o gemido?
Eles estão tristes e oprimidos.
Mais tarde, os anos o consomem e você vai ver o que seria melhor,
Se tivesse tido um amor maior
E, em vez de macho, tivesse sido somente homem.

(Neimar de Barros: O livro proibido)

Como disse o próprio Vitor “Precisamos debater gênero e sexualidade nas escolas, mais do que nunca!” tanto pelos motivos acima, quanto pela necessidade de se acabar com os abusos sexuais na infância e na adolescência e tanta desinformação que o excesso de achismos a complexifica.

Aqui no blog tentamos trazer textos como o descobri um novo interesse sexual e tenho dúvidas, mas além disso é muito necessário despertar as pessoas, adolescentes, adultos, pessoas sobre inclusão e a exclusão.

É preciso tomar atitudes e ensinar. Defender-se o tempo todo quer dizer que há um ataque o tempo todo, precisamos atuar na causa, não apenas nos sintomas. 😉 O que você acha?

Post escrito em outubro 2016. Revisado Janeiro 2020.

Como a Internet é volátil e muita gente hoje tem saído do Facebook, abaixo transcrevo o post do professor que está no link acima:

Professor, o senhor é gay?

Já ouvi essa frase algumas vezes. Uma vez por ano ao menos algum aluno pergunta. Na verdade, geralmente alunas. Como já ouvi várias vezes e sempre me intriguei com o porquê da pergunta e hoje, a pergunta veio de uma aluna de uma turma de 1º ano no meu CIEP, em Inhoaíba, resolvi usar Paulo Freire e partir do concreto para o abstrato. Parei a aula e mudei o tema para “gênero e sexualidade” (estudávamos antropologia, então é pertinente). Usei a pergunta da aluna e a mim mesmo como exemplo.

Perguntei a ela o que a levou a fazer a pergunta. Qual era o motivo da suspeição da minha homossexualidade? A aluna não quis responder, com medo de uma reação negativa ou até agressiva minha, como é bastante comum na sociedade. Insisti e ela começou a falar. Daí todos os alunos se interessaram muito e começaram a falar também os motivos de suas suspeitas.

Resolvi, para ser didático, anotar no quadro os motivos para debater um a um.

Os motivos, que para eles são características da homossexualidade que eu tenho, foram os seguintes:

– Uma aluna me deu mole e eu não “peguei”.

– Coloco às vezes a mão na cintura

– Gestos e fala característico de homossexual (segundo dois garotos apenas)

– Não fala de relacionamentos, namorada, nem da vida pessoal, o que fez no fim de semana, etc. E outros profs falam…

– Sou professor novo, moderno, simpático. Isso n é característica masculina.

– Tem outros alunos comentam que eu sou gay

– Sou vaidoso, me cuido esteticamente.

– Quando os alunos me perguntaram se eu era gay, não neguei agressivamente, mas debati o assunto. Só no final disse que não era. Não provei que era hétero mostrando fotos minha com alguma namorada, etc

– Não sou machista

– Tenho 30 anos, não casei e não tenho filhos. Todos as pessoas e trinta anos que eles conhecem já casaram e tiveram filhos. Só gays chegam aos 30 sem casar.

– Tenho amigos gays.

Sim, a lista foi longa (rs) e os instiguei a falar tudo.

Não é difícil deduzir que os pressupostos (anotados no quadro tb) dessas falas são:

– Homem que é homem, pega aluna, não rejeita mulher.

– Homem que é homem não coloca a mão na cintura.

– Homem que é homem fala das mulheres que “pega”, “prova” que é homem através de fotos com mulheres.

– Professor hétero não é simpático. Simpatia não é característica masculina.

– Homem que é homem não é vaidoso.

– Homem que é homem nega com veemência a homossexualidade, como se fosse um crime. E é obvio que homem de verdade não debate esses assuntos, muito menos usando a si mesmo como exemplo.

– Homem que é homem é machista.

Obs.: como eu queria as feministas “linha dura” que me acham O escroto machista lá naquela sala pra debater isso com eles. rsrs

– Homem de verdade casa antes dos 30 e tem filhos antes disso.

Talvez vc se pergunte o porque eu não neguei com veemência e encerrei o assunto? Porque debati algo pessoal com adolescentes de 15 anos em média?

Primeiro: qual o problema em ser gay? Porque negar isso com veemência? É crime? Imoral? Não. Ser gay ou hétero para mim é como ser flamenguista ou botafoguense. Não tem nada de bom ou ruim em nenhum dos dois.

Segundo: Acho que foi a melhor das oportunidades de debater um assunto tão delicado e proporcionar o acesso à uma outra visão de mundo aos alunos.

Não. Não sou gay rs e fiquei impressionado com a visão estreita de gênero e sexualidade de adolescentes me pleno 2016, tão limitada e machista. E fiquei imaginando a feroz repressão que os homossexuais sofrem no dia-a-dia.

Por outro lado é compreensível os alunos terem essas concepções na cultura onde estão inseridos.

Como assim vc tem 30 anos e não casou se as meninas têm filhos aos 15 às vezes? rs

Como assim vc não pega aluna que te dá mole? Só pode ser viado rs

Eu resolveria facilmente o “problema” mostrando foto com alguma mulher com que fiquei, mas porque eu me preocuparia em provar a heterossexualidade como quem prova a inocência. Porque usaria uma mulher como prova de algo?

Pode parecer engraçado para muita gente ler isso e pra mim foi. Muito. rs Mas para eles não. É o que pensam mesmo. Parece anos 1940, mas é 2016…

Imaginem se o projeto “escola sem partido” continua avançando como está. Voltaremos às trevas em pouco tempo. Precisamos debater gênero e sexualidade nas escolas, mais do que nunca!

O machismo é opressor com os homens também, se liguem nisso!

Obs.: Hoje fui trabalhar com uma camisa rosa. Aí ferrou… rs

E em tempo, utilizamos alguns termos que precisam ser explicados, e claro, se você encontrou ou ficou com dúvidas em algum outro, só perguntar.

misoginia é um sentimento de aversão extremo pelo feminino, que se traduz em uma prática comportamental machista, cujas opiniões e atitudes estabelecem a manutenção de desigualdades e da hierarquia entre os gêneros, apoiando a crença de superioridade do poder e da figura masculina pregada pelo machismo, gerando a violência e o machismo estrutural de uma sociedade que criou a sua imagem numa paternidade dura e com todos esses pré-conceitos.

Essa é uma descrição simplista do patriarcado e o que ele faz com a nossa inserção cultural. 

Já o sexismo, por sua vez, pode ser definido como um conjunto de atitudes discriminatórias (que separa) e de objetificação sexual que buscam estabelecer o papel social que cada gênero deve exercer, para isso são utilizados estereótipos de como falar, agir, pensar e até mesmo o que vestir.

Você poderá encontrar mais informações sobre este tema nos posts que falam sobre violência contra a mulher, ódio, violência sexual e navegando aqui no blog.

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