Descansar não é só dormir ou parar o trabalho. A gente pode passar o fim de semana sem trabalhar e continuar cansados, assim como também podemos dormir durante horas e horas e, ainda assim, sentir necessidade de silêncio, companhia, privacidade ou simplesmente de fazer algo diferente. Quem nunca pensou: puxa.. queria comer algo diferente hoje? Nos tipos de descanso é assim também.
Isso acontece porque o cansaço não tem uma única origem e forma. Há exigências físicas, cognitivas, emocionais e sociais (quem mora no interior descansa diferente de quem mora na megalópolis) que participam da maneira como vivemos e nos recuperamos.
Uma classificação que ganhou popularidade aqui na rede, e que as vezes passo para alguns pacientes, propõe sete tipos de descanso: físico, mental, sensorial, criativo, emocional, social e espiritual. Mas esses dias fiquei pensando, essa divisão têm base científica?
Existem realmente sete tipos de descanso?
A classificação foi difundida e acho que criada pela médica Saundra Dalton-Smith, autora de Sacred Rest (2017), e oferecia uma maneira de reconhecer diferentes necessidades de recuperação para seus leitores/pacientes.
Entretanto, os sete tipos não constituíam uma classificação diagnóstica reconhecida nem pela Psicologia ou pela Medicina oficialmente. Também não há evidências suficientes de que correspondam a sete necessidades independentes ou de que todas as pessoas precisem praticá-los separadamente – afinal nem todas as pessoas são iguais, etc etc etc.. que se você acompanha aqui já vai entender.. masssss.
O que encontramos na literatura científica são pesquisas sobre sono, recuperação do estresse, pausas, relações sociais e desligamento psicológico das exigências do trabalho que acabam transformando essa ideia em uma proposta pode útil como orientação prática, desde que não seja confundida com um modelo científico comprovado em sua totalidade.
Quais são os 7 tipos de descanso?
1. Descanso físico: recuperar o corpo

Recuperar o corpo envolve o sono (dormir), o repouso e a recuperação após esforços físicos: deveria ser obvio, mas como tudo na vida, não é.
Recuperar o corpo, dentro dos tipos de descanso, também pode incluir atividades leves, como alongamentos e movimentos confortáveis, conforme as necessidades e condições de cada pessoa. Sabe aquela esticada depois de um texto grande para alongar o pescoço? Pois é…
O sono tem funções biológicas fundamentais e não pode ser substituído pelos demais tipos de descanso. Sem contar que a falta ou excesso dele tem indicações claras de outras coisas que acontecem no nosso bio psico e social.
Para adultos de 18 a 60 anos, a recomendação geral é dormir pelo menos sete horas por noite, considerando também a qualidade do sono (blackout, sem barulho, etc)…
2. O Descanso mental: interromper as exigências cognitivas

Tomar decisões, resolver problemas, estudar, planejar e lidar continuamente com informações exige esforço mental, se você está aqui na tela, com quase certeza já deve ter entendido isso..
O descanso mental envolve períodos nos quais não precisamos sustentar essas demandas e afazeres. Fazer pequenas pausas, diminuir a alternância constante entre tarefas e conseguir se desligar das preocupações profissionais pode favorecer a recuperação. Eu, por exemplo, depois de um dia estafante de aula, trabalho, chegava em casa e ia assistir Pokemón, pois não precisava me preocupar com enredo, nada… e por outro lado, até hoje, não terminei de assistir a série maravilhosa do Selton Melo, sessão de Terapia, pois parece que to trabalhando ainda depois de vê-la.
O descanso mental, não significa necessariamente ficar sem pensar, mas poder direcionar a atenção sem a cobrança permanente de produzir ou resolver alguma coisa.
3. Descanso sensorial: reduzir estímulos

Sensações, esse é o foco do tipo de descanso que chamamos de sensorial: notificações, conversas simultâneas, ruídos, iluminação intensa e exposição prolongada a telas podem produzir desconforto e sobrecarga em determinadas situações. Aqui hoje, to no escritório escrevendo este texto, tem alguém lixando a parede do lado pois tá reformando o banheiro, há buzinas na praça lá embaixo e minha cabeça tá começando a avisar que o cheiro do “cheirinho da sala” tá demais pra minha rinite…
Essas são as sesações e diminuir estímulos, procurar ambientes mais tranquilos ou simplesmente passar algum tempo sem notificações pulando na sua cara pode proporcionar alívio.
Essa necessidade varia entre pessoas e ambientes. O objetivo não é eliminar estímulos totalmente, mas reconhecer quando sua intensidade ou quantidade está provocando desconforto.
Um outro exemplo: essa semana foram as eleições, passei a semana trabalhando com pessoas que viram mudanças graves naquilo que acreditam, diante disso, eles entraram mais fundo na pesquisa, no tema, quando a ansiedade e o corpo, pedem uma pausa para que depois, consigam se recuperar e trabalhar de maneira adequada naquilo que acreditam.
4. Descanso criativo: experimentar sem precisar produzir nada

Quem passa muito tempo criando algo, resolvendo problemas (seus ou dos outros) ou apresentando soluções também pode se cansar dessas exigências. Puxa, afinal de contas elas requerem esforço e gasto de energia.
Na classificação de Dalton-Smith, o descanso criativo envolve recuperar o contato com experiências que despertam interesse, curiosidade e inspiração, como apreciar arte, música, paisagens ou novas experiências. É sair um pouco da vibe de transformar tudo em trabalho, e voltar para o âmago: você fazia isso pq gostava né?
Sua utilidade está em permitir uma relação com essas atividades sem transformá-las em mais uma tarefa que exige desempenho. Olha, não existe, entretanto, comprovação de que o descanso criativo seja uma necessidade biológica independente, mas se você sente isso, a ideia é que use de maneira diferente.
Quer um exemplo: eu posto quase que diariamente para o instagram do Psico.Online. Tem dias que posto sem legenda, posto uma coisa boba, só para ser “divertido” mas dentro do tema que gosto.. isso costuma acontecer às sextas, mas é um jeito que encontrei para descomprimir.
5. O Descanso emocional: não precisar segurar a barra de tudo o tempo inteiro

Controlar constantemente o que demonstramos (ou o incontrolável), evitar conflitos, atender às expectativas alheias e assumir responsabilidades emocionais pode ser desgastante e um trabalho infinito.
O chamado descanso emocional nos tipos de descanso envolve encontrar (ou pelo menos procurar né) condições para reconhecer e expressar sentimentos, estabelecer limites – sem impor nada – e não precisar aparentar disponibilidade permanente.
Isso depende também da segurança das relações que se contrói. Não basta recomendar que alguém fale sobre seus sentimentos quando o ambiente em que se vive não oferece condições para essa expressão, mas observar isso e tomar ações com base no que se percebe, essa é a chave, para conseguir descansar.
6. Descanso social: equilibrar convivência e privacidade

As relações humanas oferecem apoio e pertencimento, mas também envolvem conflitos, expectativas e responsabilidades. Tirar por conveniência um o outro, é ignorar o principio norteador que nos faz ser maduros e compreender nossas necessidades e as de outrém.
O descanso social significa reconhecer quando precisamos de companhia, de relações acolhedoras ou de momentos de privacidade. Essa semana mesmo, falei para uma paciente que amo, e que trabalho a integração social, que ela deveria poupar-se e ficar um pouco quietinha no seu canto.
Isso não equivale simplesmente ao isolamento.
Uma conversa agradável pode ser reparadora para alguém que passou o dia sozinho, enquanto um período de silêncio pode beneficiar quem precisou interagir continuamente por dias a fio.
7. Descanso espiritual: recuperar o sentido das experiências

Embora receba o nome de descanso espiritual, essa dimensão não precisa estar associada à religião. Falei bastante disso no livro Deus e o Psicólogo.
Na proposta original, esse dimensão dos tipos de descanso, envolve conexão com valores, pertencimento, propósito e experiências consideradas significativas. Pode incluir práticas religiosas, participação comunitária, contemplação ou atividades coerentes com aquilo que a pessoa valoriza se fizer parte do sagrado para a pessoa.
A Psicologia investiga as relações entre sentido de vida e bem-estar, mas isso não comprova a existência de um descanso espiritual separado dos demais.
O que a ciência realmente comprova sobre descansar?
Existem evidências de que o sono adequado e a recuperação das exigências cotidianas participam da saúde física e psicológica – o que quer dizer saúde física, emocional e mental.
Uma metanálise publicada em 2022 na revista PLOS ONE, envolvendo 22 amostras e 2.335 participantes, encontrou benefícios pequenos, mas estatisticamente significativos, das micropausas na redução da fadiga e no aumento da disposição. Os resultados sobre desempenho foram menos consistentes. Você pode confirmar ali nas referências.
Outra metanálise, publicada no Journal of Organizational Behavior, identificou associações entre experiências de recuperação após o trabalho, como desligamento psicológico, relaxamento e autonomia sobre o tempo livre, e indicadores de bem-estar.
Essas pesquisas apoiam a importância de descansar, mas não validam especificamente a teoria dos sete tipos de descanso, o que também quer dizer que não invalidam.
Descansar também depende das condições de vida
Existe uma questão que nenhuma lista de autocuidado (ou tipos de descanso) deveria ignorar: nem todas as pessoas possuem as mesmas oportunidades de descanso. Diga-se a discussão da escala 6×1.
Jornadas extensas, insegurança financeira, deslocamentos, responsabilidades domésticas, cuidado com familiares e relações desgastantes podem limitar significativamente o tempo e as condições necessárias para recuperar-se.
Por isso, o descanso não deve ser tratado apenas como uma questão de disciplina ou organização individual facil de serem resolvidas.
Reconhecer nossas necessidades pode ajudar, mas também precisamos considerar as condições sociais, materiais e relacionais que permitem ou impedem atendê-las. É o velho e conhecido aqui da gente Bio, Psico e Social.
Como descobrir de quais tipos de descanso você precisa?
Em vez de tentar cumprir as sete modalidades, observe a natureza do cansaço que está experimentando.
Você precisa dormir? Está sobrecarregado ou sobrecarregada de decisões? Sente falta de privacidade? Suas relações têm exigido disponibilidade contínua? Há pouco espaço para atividades que tenham significado para você?
Essas perguntas não são um teste psicológico, mas podem ajudar a identificar necessidades e possibilidades de mudança. E terapia idem.
O descanso não precisa se tornar mais uma obrigação em uma rotina já sobrecarregada.
Descansar, com ou sem tipos de descanso, também significa ter condições de interromper exigências, recuperar recursos e participar da vida para além das responsabilidades do dia a dia.
Quando o cansaço permanece intenso, mesmo com oportunidades adequadas de repouso, é importante investigar possíveis causas de saúde (burnout, ansiedade e outras entidades da vida). A psicoterapia também pode contribuir para compreender conflitos, cobranças, relações e condições de vida que dificultam a recuperação.
Aqui no Psico.Online, você pode conversar com um psicólogo sobre essas experiências, tipos de descanso e os caminhos possíveis para lidar com elas.
Referências para o texto Tipos de Descanso no Psico.Online
- Dalton-Smith, S. (2021). The 7 types of rest that every person needs. TED Ideas.
- Albulescu, P. et al. (2022). Give me a break! A systematic review and meta-analysis on the efficacy of micro-breaks for increasing well-being and performance. PLOS ONE, 17(8).
- Bennett, A. A. et al. (2018). Recovery from work-related effort: A meta-analysis. Journal of Organizational Behavior, 39(3), 262–275.
- Centers for Disease Control and Prevention. (2024). About Sleep.
- King, L. A., & Hicks, J. A. (2021). The Science of Meaning in Life. Annual Review of Psychology, 72, 561–584.








