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Minha mãe morreu

Categorias: Fases da vida / Morte
Minha mãe morreu

A morte da mãe: diante das trevas do luto e da memória

Minha mãe morreu no dia 03/09/2025 e queria fazer um texto para o site falando disso. Fiz as minhas peripécias utilizando as ferramentas de sempre para que este texto alcance o máximo de pessoas, utilizei alguns documentos e a sugestão de um título foi outra, mais rebuscada, então, este será o subtítulo, pois quero eternizar este momento diretamente com minhas palavras, e isso, querido leitor ou leitora, já é um movimento para passar pelo luto que é tão dolorido.

Minha mãe morreu.

Falar da morte da mãe não é apenas expor uma dor pessoal, mas também se conectar com milhares de outras pessoas que, em silêncio, já enfrentaram ou enfrentarão essa mesma experiência.

A perda materna está entre os momentos mais intensos da vida. Não importa a idade que temos, quando a mãe parte, se tivermos alguma relação mais íntima com ela, algo em nós se reorganiza. E isso não acontece de forma automática, cada um atravessa à sua maneira.

O Caminho do Luto Materno

A morte da mãe não se reduz a um instante; é um caminho, um tempo de luto e acho que fica de alguma maneira até o final da nossa vida. O luto materno não tem cronômetro e ele dobra e se estende no tempo, como as sombras que mudam conforme a luz do dia. Nas minhas idas e vindas das redes sociais, tem muita gente que tem o luto quase insuperável, mas por tudo o que acredito, acho que o processo é difícil, mas ele se transforma de dor em saudade se for bem trabalhado e observado. O luto não tenta passar, ele convida à convivência com a dor, à aceitação da saudade que não desaparece, mas que se transforma. São como ondas no mar: vem e vão; dias bons e dias tempestuosos.

Nos primeiros dias, o luto é uma névoa espessa. Tudo é automático: respirar, comer, falar ou viver (sem drama). O mundo perde suas cores e sons, como se um botão de volume da vida tivesse sido virado para baixo. É comum sentir uma dor quase física, um peso no peito que nos lembra, a cada respiração, do rompimento de um cordão invisível, mas vital, que nos ligava a ela e de novo faço essa ressalva, se a relação fosse boa. Esse é o luto do “não acredito”. É válido, é necessário, é o choque do corpo e da alma.

Aqui vale uma observação: cada cultura, cada família e até cada indivíduo vai nomear esse processo de formas diferentes. Em algumas tradições, o luto é vivido com rituais coletivos que oferecem apoio social; em outras, o silêncio predomina. O que é universal, porém, é o impacto da perda materna na reorganização da nossa identidade porque a figura da mãe, seja ela qual for, é parte fundadora de quem nos tornamos.

A Presença na Ausência: Aprendendo a Escutar o Silêncio

Podemos perguntar: como lidar com essa perda que nos desestabiliza? Talvez o que precisamos é aprender a escutar a voz da mãe que permanece nas lembranças, no silêncio das coisas que ela deixou, nas histórias que seguimos contando.

O amor que sentimos por ela não acaba, apenas muda de forma; torna-se força invisível que nos sustenta.

Comecei a perceber que o processo de luto pela mãe não é sobre “esquecer” ou “virar a página”. É sobre aprender uma nova linguagem de amor (e nem curto muito essa teoria aí). É sobre encontrar minha mãe nos lugares mais inesperados: no sabor de uma comida que ela amava, no modo como organizo uma gaveta, em uma frase sua que, do nada, ecoa na minha mente como um sussurro sábio ou um xingamento. A presença dela não está mais no telefone, na cadeira da sala ou na porta de entrada. Agora, ela mora na memória. E a memória é um território vasto e vivo, que podemos visitar quando a saudade apertar.

Esse reconhecimento de que a mãe continua de outra forma é uma das etapas mais transformadoras do luto. A psicologia contemporânea fala de “vínculos contínuos”: a ideia de que não precisamos romper o elo com quem morreu, mas sim reinventar a relação. Isso significa permitir que a lembrança tenha lugar ativo no cotidiano, sem que isso seja visto como “não superar”.

E aqui vale um ponto de atenção: existe um tipo chamado de luto prolongado, reconhecido pelo DSM-5, em que a dor se estende por muito tempo e passa a comprometer a vida diária. Se a intensidade continua depois de 6 a 12 meses, é sinal de que pode ser hora de buscar apoio. Não para “esquecer”, mas para integrar essa ausência de uma forma que permita seguir vivendo.

A Dor e a Luz: A Coexistência dos Opostos

O processo do luto é um tempo de convivência com a ausência e a presença simultânea. É um espaço onde a dor e a esperança andam lado a lado, onde as lágrimas e o sorriso podem coexistir.

Há dias em que a tristeza é um oceano, e nós, apenas um barco à deriva. Em outros, a gratidão por tê-la tido é tão forte que ilumina tudo. E está tudo bem. Está tudo bem chorar até não conseguir mais, e está tudo bem rir de uma lembrança feliz sem se sentir culpado. O luto não é linear. Ele é uma espiral: às vezes voltamos à mesma dor, mas de um lugar um pouco mais alto, com um pouco mais de compreensão.

No reencontro com a memória, encontramos luz nas trevas e sentido para continuar caminhando. Cada história relembrada é uma vela acesa na escuridão. Cada gesto seu que repetimos é uma forma de mantê-la viva em nós.

Essa coexistência entre dor e gratidão não é contradição, mas sinal de que estamos vivos. É a prova de que o amor, mesmo na ausência, continua sendo motor de transformação.

O Luto Como um Ato de Amor Corajoso

A perda da mãe é a ferida mais profunda, mas também a raiz onde nasce nossa humanidade mais sensível. Que possamos acolher nossos sentimentos, sem pressa para “superar”, reconhecendo que o luto é amor que insiste em viver.

Superar implica deixar para trás. E nós não queremos deixar nosso amor por ela para trás. Queremos aprender a carregá-lo de uma nova maneira. Esse amor, agora transformado em saudade, é a prova mais contundente de que o vínculo era real, profundo e eterno.

Portanto, se você está aqui, lendo estas palavras, vivendo essa mesma dor, saiba que você não está sozinho ou sozinha. Respire. Deixe a dor vir. Deixe a saudade falar. Converse sobre sua mãe. Escreva para ela. Grite, se precisar. Ou faça textos para um blog. E, nos momentos de quietude, escute. Ela estará lá, não como antes, mas de uma maneira que, aos poucos, começará a fazer um novo sentido.

O luto pela morte da mãe é a jornada mais solitária e, paradoxalmente, a que mais nos conecta com a essência do que é amar e ser humano. É um amor que não termina. Apenas se transfigura.

Se sentir que precisa falar sobre isso, a terapia pode ser um espaço seguro para elaborar a saudade e transformar a dor em um caminho mais leve. Aqui no Psico.Online, estamos disponíveis para te acompanhar nesse processo.

E se quiser falar sobre isso, tô aqui, só agendar um horário que podemos falar da morte, do morrer, do luto e da ausência de nossas mães, claro, se isso for para te ajudar, pq eu, to aqui e na minha terapia. 😉

E claro, dedico este texto a minha mãe, dona Helena, que onde quer que esteja, se estiver, que zele para que meu coração se abrande. Saudades “mãe dele”.

Com acolhimento e esperança,
Marcos Raul de Oliveira

Autores que participaram deste post:

Marcos Raul de Oliveira (CRP 06/154.661) é psicólogo, administrador com ênfase em marketing e cursou Tecnologias da Inteligência e Design Digital focando sua pesquisa no ser humano contemporâneo, seu sofrimento transversalizado pela tecnologia. Atua principalmente com atendimentos clínicos online para adultos, unindo psicologia, tecnologia e comunicação em uma prática fundamentada na abordagem histórico-cultural. É cofundador das plataformas Psico.Online e MeuPsicoOnline.com.br, autor de três livros e colaborador em veículos como revistas, portais e jornais especializados em saúde mental, comportamento e cultura digital. Com um olhar crítico e acessível, integra experiência clínica, pesquisa e inovação para promover reflexões profundas e transformações reais na vida das pessoas.

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