Vínculos tóxicos - Família laços de amargor

Vínculos tóxicos – Família laços de amargor

5 min de leitura · 

Os vínculos tóxicos: é comum no consultório, ouvindo os relatos dos pacientes, ou mesmo em nosso dia a dia, nos depararmos com um amigo, primo, colega de trabalho, enfim, alguém que percebemos ser uma pessoa com muitas qualidades, uma pessoa como podemos dizer… “do bem” sendo “usada”, “manipulada”, “escravizada” por outras pessoas.

Ficamos perplexos e se temos intimidade perguntamos: como você aguenta? Não vai falar nada? Fazer nada? E de repente … o silêncio misturado com a vergonha se rompe em uma justificativa paralisante…

“Então, é minha mãe, ou meu pai, meu irmão, minha filha, minha esposa, meu marido…”

Como se estes laços sanguíneos ou no caso do casamento, “de papel passado”, justificassem os abusos psicológicos e até físicos sofridos por muitos. Laços familiares que estão mais para correntes de aço, que te prendem, sufocam e que te matam aos poucos.

Em nossa cultura judaico cristã pai e mãe estão no sagrado, o lar é sagrado. Por exemplo, de mãe tomamos Nossa Senhora e por filho… ah, o filho exemplar é Jesus Cristo. Pai, este sim, o Todo Poderoso que tudo vê e tudo pode, afinal criou o mundo!
Trazer um pouco de consciência e de humanidade às famílias e em alguns casos questionar sua forma de funcionamento é mexer nesse sagrado e, este sagrado, está em nosso inconsciente coletivo… todos esperam ter a “sagrada família”, e não se pode questionar ou mexer nesse sagrado sem dor.

A lei do divórcio no Brasil veio em 1977 [1] afinal casamento é pra vida toda! Só de olhar para este fato tão recente ― de que divórcio não existia e sempre é um processo doloroso para os que atravessam ― podemos perceber o quanto dói mexer na família.

Apesar de termos em nossa mente a família como algo sagrado, nós somos humanos, cometemos erros e isso faz parte de nossa espécie.

A questão é que há muitos casos onde, ultrapassada a barreira saudável, da convivência, entra-se na humilhação, violência, abuso, manipulação psicológica; ou seja, vivemos com o demônio! Sem paz, sem alegria, como no filme Dormindo com o Inimigo e, aguentamos anos após anos, cada vez perdendo nossa própria voz em prol de laços afetivos.

Veja também sobre vínculos tóxicos e violência:

  1. Quando a violência doméstica dói na alma
  2. Violência contra mulher e homicídio passional

Quantas crianças perdem sua infância limpando a casa com serviço pesado e ainda sofrendo humilhações das mais sórdidas, meninas e meninos espancados por não trazerem dinheiro para sustentar vícios de seus pais, filhas e filhos que se tornaram pais de seus pais, vão buscá-los em bares, dão banho e comida, familiares que usaram e abusaram do crédito do nome de seus filhos, esposa, marido, filha sendo aliciada por sua própria mãe, irmãos que roubam toda herança da irmã (o) quando morre o pai, ou avós, pais, tios que abusam sexualmente de filhas, netas, enfim a lista é tamanha que não caberia aqui.

São vivências e dores contínuas, jogos de manipulação, humilhações, uma rotina, um segredo de família, uma vergonha misturada com medo que paralisa e petrifica. As vezes nem se sabe se é possível ser diferente, até porque nunca foi diferente e essa realidade foi vivida sempre assim.

Sim é seu pai, sua mãe, seu irmão e isso você não teve escolha, mas hoje, o que você escolhe fazer?

A família ou as pessoas que exercem este papel são base para constituição da pessoa: é através dela que começamos a conhecer o mundo.

Mas quando o vínculo é venenoso, Como fazer para sair disso?

O caminho é longo e dolorido, pois temos na família nosso modelo de valores, a necessidade de pertencer, aspiramos por amor e compreensão e temos a fantasia de que a família é o sagrado e que lá encontraremos tudo isso, mesmo que seja algo tão ruim e danoso para algumas pessoas.

Tendo a família como base da constituição e estando ela em nosso sagrado, cortar este laço é como cortar algo de si, é como amputar um membro. Fazemos de tudo pra salvar, queremos manter, mas as vezes por mais que desejemos manter, o que precisa ser feito é retirar esta parte que nos pertence para que a vida seja salva e para que a ferida possa começar a cicatrizar. Sim, laços venenosos precisam ser rompidos.

A terapia vem para colocar uma lupa na relação. Olhar o que é seu e o que é da outra pessoa.

Às vezes a convivência pode ser possível, mas em relacionamentos abusivos é necessário a separação física mesmo! É quase impossível fortalecer o ego de uma pessoa que foi a vida inteira explorada, humilhada, manipulada, violentada, convivendo no mesmo ambiente que o da pessoa que o (a) fez sofrer.

Seria possível Rapunzel continuar na torre, como se nada tivesse acontecido, após descobrir que foi raptada, que a bruxa não é sua mãe e que explorava os dons de seus cabelos? Acho que não.

Da mesma forma, após adquirir consciência da relação, a pessoa sofre muito e o papel da terapia é auxiliar nesta jornada, não só a enxergar a relação, como buscar fortalecer o paciente para que ele possa achar os caminhos e sair da prisão.

É difícil enxergar o abuso parental e os vínculos venenosos.

Muitos ouvem ainda que “é para o seu bem”, ou “é para ajudar a família”, “mas é seu pai (mãe)”… mas e você? E para você? E o que você pensa? Por isso que nos casos de violência doméstica e abuso sexual a denúncia ainda é rara e quando há, não tem o total apoio da “família”.

Estes laços afetivos que são laços de fel, deixam marcas para toda uma vida, nos atormentam em relacionamentos futuros com cônjuge ou no trabalho, nos diminuem ou nos deixam duros demais. É preciso salvar nossa alma, salvar nosso eu e resgatar o brilho da vida que nos foi tirado.

Dói muito quebrar esse vínculo que é tóxico e como toda droga: há um processo de desintoxicação para ficar limpo. Este processo é difícil, angustiante, desesperador, mas possível.

É como amputar um membro de si, ninguém quer, mas é preciso para reconstruir a vida e não apodrecer o corpo. O papel do terapeuta é trazer luz a estes relacionamentos que tanto aprisionam e, buscar em conjunto com o paciente, a melhor forma de reconstruir a vida.

Referências:

[1] http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L6515.htm

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Soraya Sartori
Psicóloga CRP 06/79350, pós graduanda em formação Clínica com orientação Junguiana pela Opus Psicologia e Educação, possui MBA em Gestão e Desenvolvimento de Pessoas pela FGV e Executive Coaching pela Sociedade Brasileira de Coaching.

Atendimento em psicologia organizacional, coaching e psicoterapia clínica para adolescente e adulto com atuação em diversas áreas como: depressão, TDAH, violência e abuso sexual, T.A.G. - transtorno de ansiedade generalizada, transtornos alimentares, compulsões diversas (alimentar, sexual, etc) e uso de droga e álcool há 15 anos.
Atuante na estruturação de programa de atendimento às pessoas vítimas de abuso sexual e coaching de carreira para identificação de interesses, plano de desenvolvimento, análise de perfil, desenvolvimento de competências e assessoria para processo de assessment center.

Celular (11) 98753-1736

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Psicóloga CRP 06/79350, pós graduanda em formação Clínica com orientação Junguiana pela Opus Psicologia e Educação, possui MBA em Gestão e Desenvolvimento de Pessoas pela FGV e Executive Coaching pela Sociedade Brasileira de Coaching. Atendimento em psicologia organizacional, coaching e psicoterapia clínica para adolescente e adulto com atuação em diversas áreas como: depressão, TDAH, violência e abuso sexual, T.A.G. - transtorno de ansiedade generalizada, transtornos alimentares, compulsões diversas (alimentar, sexual, etc) e uso de droga e álcool há 15 anos. Atuante na estruturação de programa de atendimento às pessoas vítimas de abuso sexual e coaching de carreira para identificação de interesses, plano de desenvolvimento, análise de perfil, desenvolvimento de competências e assessoria para processo de assessment center. Celular (11) 98753-1736

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