Descobri que estou com HIV/AIDS e agora?

5 min de leitura · 

Descobri que tenho HIV/AIDS. Tenho 36 anos, sou casada.

Tenho também duas filhas lindas e tudo começou quando descobri que meu marido estava me traindo. Resolvi traí-lo também. Ele passava dias e noites fora, às vezes semanas ou meses, ligava várias vezes e ele nunca atendia.

Quando eu cobrava, sempre havia alguma desculpa, aí resolvi seguí-lo e, então, descobri a traição.

Pensei: “não vou me separar, vou pagar na mesma moeda. Sou uma mulher bonita, usarei o meu corpo e vou sair com vários homens, novos, velhos, que se dane”!

Quando eu saía com outros homens me sentia desejada, amada.

Me sentia mulher, coisa que há tempos eu deixei de sentir com o meu marido.

A sensação foi de que o mundo se abriu e eu comecei a viver novamente, muito bom, não me arrependo de nada.

Até que um dia comecei a me sentir estranha e com sintomas diferentes como: dificuldade para engolir, tosse seca, corpo fadigado, febre, mal-estar, perda de apetite, suor noturno…

Com o tempo, veio a perda de peso e a fraqueza.

No início achei que era normal por conta das noitadas, bebidas e fui deixando pra lá.
Lembro de uma noite que passei muito mal e fui levada para o hospital.  

Chegando lá, realizei vários exames, e recebi a notícia: Soropositivo – Portadora do Vírus HIV/AIDS.

Confesso que meu mundo caiu. E agora?

Agora, como vou explicar esta situação para meus familiares?

Resolvi ficar calada, a lei me acoberta, não sou obrigada a falar.

Os anos passaram, não precisei tomar nenhuma medicação, na verdade o médico passou os coquetéis e eu resolvi não tomá-los e continuar a viver a vida ignorando a notícia, vai que um milagre acontece.

Depois de 8 anos com HIV/AIDS, a doença se manifestou.

Agora estou com as manifestações das doenças oportunistas.  

Que situação! Às vezes eu penso em tirar minha própria vida, não é fácil, e minhas filhas, que Deus as ajude, elas podem estar contaminadas e o meu marido também. Conto este segredo para minha família? Eles nunca me perdoarão.

Na verdade não me sinto à vontade, estou internada, mas minha família não sabe o motivo.

Minhas filhas podem estar contaminadas porque quando comecei a sair não estava grávida, engravidei depois, o pior é que nem sei se elas são do meu marido, mas estou vingada.

Se eu morrer ou tirar minha própria vida… resolvo com Deus, o Pai sempre perdoa o filho.

Ando agora com este pensamento de tirar a minha vida, já me vinguei do meu marido, estou feliz, não tenho motivo para continuar a viver…

O relato acima da paciente que descobriu que está com HIV/AIDS é fictício, mas poderia ser real. Aliás, é mais comum do que muitos leitores imaginariam.

Nessa situação, onde a crise está acontecendo, é muito importante procurar ajuda.

O quanto antes, procure falar com um psicólogo e com um médico também: um infectologista para AIDS e outros profissionais que ele recomendar.

Aliás, é preciso perceber que esses profissionais ajudarão e que as dicas e sugestões que serão passadas tentarão quebrar um ciclo pernicioso de uma espiral devastadora e que é extremamente prejudicial a você.

Mas de qual ciclo estamos falando? Tudo já está péssimo!

Repare nos trechos do texto: “Resolvi traí-lo”, “resolvi seguí-lo”, “Pensei: “não vou me separar, vou pagar na mesma moeda”, “usarei o meu corpo”, “me sentia”, “eu deixei de sentir”, “me sentir estranha e com sintomas”, “Resolvi ficar calada (sobre a AIDS)”, “resolvi não tomá-los e continuar”, “ignorando a notícia”, “eu penso em tirar minha própria vida”, “não sei se”,  “estou vingada” e “estou feliz, não tenho motivo para continuar a viver”…

A contradição e a sequência de eventos levam a um conflito final sem sentido: estou feliz e não tenho motivos para viver”, o paciente fictício assume uma postura de certezas, escolhas e caminhos que não têm nada de melhoria ou sentimentos bons e, quando os usa, se contradiz ou servem de “desculpa”.

Pense comigo, a situação torna-se ainda mais crítica pelos problemas sociais e emocionais que decorrem do recebimento do diagnóstico de HIV/AIDS.

Ninguém sabe lidar com esse baque e ninguém, além dessa pessoa está tomando decisões perniciosas, mas é importante, perceber  em primeiro lugar que há pessoas com quem você pode contar e que não é errado errar ou tomar más decisões, mas que é importante perceber que se pode fazer outras escolhas.

O tratamento e a medicação são encontrados nos postos de saúde após a realização de exames e de testes rápidos. O psicólogo e o médico também.

Afastar-se de amigos, ignorar o impacto já causado na sua família, amigos, amante.. nas alterações das relações íntimas, na diminuição de recursos financeiros decorrentes de toda essa situação poderá, caso seja ignorada a ajuda, surgir uma possível depressão, que fará com que a situação se complique ainda mais.

É a hora de buscar a quebra do ciclo, de tentar alternativas diferentes propostas por profissionais que acompanharão seu percurso e que convivem com essa situação no seu dia a dia profissional e estudaram para ajudar.

Temos que dizer que se diante de um paciente com forte ideação suicida, o profissional que atendê-lo deverá comunicar a família e pedir avaliação psiquiátrica urgente, e até, em casos extremos, requisitar uma internação, mesmo contra a vontade deste ser humano desesperado.

Se o profissional julgar que naquele momento o desespero e os problemas enfrentados ultrapassem a capacidade de julgamento, é essa a solução. Preciso dizer: o maior bem é a vida, e mesmo que neste momento você não concorde, você poderá descobrir isso depois que a situação toda passe.

É importante ressaltar que os antidepressivos levam, em média, 14 dias para promover uma melhora e que por mais que tudo pareça perdido, há uma saída, há qualidade de vida, há de ser necessário buscar esperança, força e ajuda.

Sobre a ilustração

Henn Kim é uma ilustradora e retratista que, com traços precisos, desenha imagens conceituais, minimalistas e repletas de significados subjetivos, sempre envolvendo elementos psíquicos comuns ao ser humano. Veja mais no site.

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Marta Batista Souza Neta
CRP 02/13314 - Psicóloga Clínica/Hospitalar com especialização em Neuropsicologia - atualmente trabalha na Santa Casa Misericórdia do Recife e Hospital Albert Sabin, Consultório no Derby onde realiza atendimento aos sábados, contato: (81) 987192100
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Marta Batista Souza Neta

CRP 02/13314 - Psicóloga Clínica/Hospitalar com especialização em Neuropsicologia - atualmente trabalha na Santa Casa Misericórdia do Recife e Hospital Albert Sabin, Consultório no Derby onde realiza atendimento aos sábados, contato: (81) 987192100

7 thoughts to “Descobri que estou com HIV/AIDS e agora?”

  1. Muito bom. E como sempre cheio de seu toque de sensibilidade . A alma humana requer muito amor e compreensão , muitas vezes negadas em horas tão difíceis. Desabafar só com Deus. Mas felizmente hoje temos psicólogos e psiquiatras cheios de humanidade e entendimento. Obrigada Dra. Marta querida. Quem sofre com este problema com certeza se sentirá bastante motivado a buscar ajuda. !

    1. Cara Cidamar Oliveira,

      Inicialmente obrigado.
      Pontuo, devemos buscar sempre primar pela acolhida e escuta, aos pacientes.
      Agradecemos sua colaboração.
      Marta.

  2. Difícil. Mesmo sendo uma história fictícia não é fácil lidar com a situação. Creio que Ela não só se vingou do marido a vingança foi bem maior com ela mesma. A raiva , ódio só faz mal quem a tem. Ela achou que começou a viver dando o troco onde se sentiu mas mulher, e agora está pagando caro por isso..

    1. Cara Maria das Graças,

      Inicialmente obrigado.
      A análise elaborada, mesmo com um caso fictício refere-se à abordagem do Psicólogo ao paciente, em um momento como o relatado.
      Agradecemos sua colaboração.
      Marta.

  3. Perfeita reflexão da realidade de muitos, que se trancam em seus porões e impermeabilizam a oportunidade de sobrepor a situação. Uma decisão errada é prejudicial sim, mas não é o fim.
    Viver sempre será o melhor a se fazer, pois onde há vida, há esperança. Parabéns Marta Batista.

    1. Caro Abrahão Andrade,

      Inicialmente obrigado.
      Cabe ao profissional de Psicologia, buscar dar o apoio necessário ao paciente, trabalhando para remover a culpabilidade e a introversão.
      Agradecemos sua colaboração.
      Marta.

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