cura gay, homossexualidade, lgbtq

Cura gay e a terapia de reversão e afins, vamos conversar?

3 min de leitura

Cura gay, demorei um pouco pra conseguir escrever sobre esse assunto.

Primeiro porque o acho super delicado e segundo porque precisava deixar a minha emoção baixar um pouco, pra não cometer o erro de julgar coleguinhas de profissão que estão a favor desse (des)serviço que alguns propõem.

Pois bem, antes de mais nada quero contar que no dia em que saiu a tal da concessão que torna legal o tratamento da homossexualidade, meu corpo gelou, senti um choque, na sequência uma raiva, um sentimento de desrespeito com as pessoas que eu amo e com as que eu cuido. Sim, cuido!

Cada pessoa que passa por mim como paciente é cuidado, de uma maneira singular e respeitosa. E o que eu tento fazer é ajudar essa pessoa a se olhar e encontrar todo o seu potencial transformador que, as vezes, tá escondidinho dentro do armário.

Clique e fale com um Psicóloga Online agoraFui atrás de ler a liminar, de conferir quem entrou com o pedido para a liberação, de observar e compreender distintos pontos de vista.

Cheguei à conclusão de que algo muito errado está acontecendo com as pessoas (ok se você achar que eu estou julgando aqui). Não respeitamos mais o outro, a natureza do outro, as dificuldades do outro.

E vou te contar como eu cheguei a essa conclusão.

Já atendi diversos homossexuais, cada um com um jeito de ser e de encarar isso (e pasme, o CRP não me proíbe de realizar esses atendimentos). Alguns muito bem resolvidos, outros com dificuldades pra entender se eram bi ou homo, outros com dificuldades porque os pais não aceitavam. Tantos com problemas relacionados ao preconceito, a segregação, ao medo.

Mas um caso em particular é o meu xodó. O recebi em meu consultório há pouco mais de um ano. Chegou tímido, falando pouco, mas claramente cheio de demandas a serem cuidadas.

Me contou que havia se relacionado com um homem, mas que temia isso, porque achava que Deus poderia castigá-lo e que sua família jamais o aceitaria.

Imagine agora, se eu fosse um desses profissionais que acreditam na terapia de reversão. O que eu teria feito? Teria destruído a vida desse homem, teria tolhido o seu direito de ser feliz e a sua capacidade de enfrentar o mundo para ser quem ele é.

Conversamos muito sobre como ele via a homossexualidade, sobre como pensava que Deus poderia castigá-lo, sobre como ele vinha se escondendo e diminuindo para não ser notado, mas também sobre como ele diminuía a sua vida e se anulava por ter medo.

Abrimos uma a uma cada caixinha do passado, revisamos crenças, derrubamos e reconstruímos conceitos e ele, que sempre dizia que não seria capaz de contar isso aos pais, em menos de um ano me encheu de orgulho quando chegou anunciando que havia contado e que, agora, se sentia livre.

Menos de um ano para se aceitar, para lidar com o preconceito, com os medos, com o estigma que alguns insistem em alimentar.

Na minha humilde opinião, não se trata de ajudar um egodistônico a deixar de ser homossexual, se trata de olhar pra ele com respeito, de tornar real a capacidade que existe de enfrentar o que for preciso pra ser feliz.

Se esse mesmo paciente levasse 10 anos pra se assumir, não me importa, eu estaria com ele, dando todo o auxílio necessário para que compreendesse quem ele é, como ele quer agir e atuar nesse mundo, mas jamais poderia ajudá-lo a deixar de ser quem ele é.

Tem gente que chega no consultório achando que é homossexual, mas depois de se observar e compreender algumas questões, chega à conclusão de que não e isso é normal.

Mas perceba que isso não é, nem de longe, deixar de ser gay, lésbica ou bi, é só um ajuste na maneira de se enxergar no mundo, uma reorganização dos seus sentimentos. Afinal, quando você era mais jovem, nunca teve essa dúvida? Nem por um segundo?

E pra finalizar, que me perdoem os colegas que acreditam na cura gay, mas quem precisa de cura são vocês.

Você vai gostar de ler também:

Raquel Ferreira
CRP 6/101759 - Graduada pela Universidade São Francisco, mestre em Ciências da Saúde pela Coordenadoria de Controle de Doenças do Estado de São Paulo. Psicóloga clínica desde 2010, busca constante aprimoramento na abordagem analítica. Estudou Cinesiologia no Instituto Sedes Sapientiae, frequentou grupos de estudo e supervisão teórica na Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica de São Paulo e ainda, integrou o grupo de Neurociências do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Atualmente é doutoranda em Psicologia Social, pela Universidad Complutense de Madrid.

Raquel Ferreira

CRP 6/101759 - Graduada pela Universidade São Francisco, mestre em Ciências da Saúde pela Coordenadoria de Controle de Doenças do Estado de São Paulo. Psicóloga clínica desde 2010, busca constante aprimoramento na abordagem analítica. Estudou Cinesiologia no Instituto Sedes Sapientiae, frequentou grupos de estudo e supervisão teórica na Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica de São Paulo e ainda, integrou o grupo de Neurociências do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Atualmente é doutoranda em Psicologia Social, pela Universidad Complutense de Madrid.

Participe, queremos ler o que você tem a dizer