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As Múltiplas Faces da Depressão: Manifestações Culturais, Coocorrência e Estratégias de Enfrentamento – 10 pontos para você prestar atenção

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Depressão, é uma palavra que nos lembra de imagens sombrias e sentimentos pesados. E, é muito mais complexa do que muitos de nós podemos imaginar. Como um dos transtornos psicológicos mais comuns e devastadores, a depressão tem múltiplas facetas – ela se manifesta de maneiras diferentes em pessoas diferentes, co-ocorre frequentemente com outras condições físicas ou mentais e é afetada por uma variedade de fatores, incluindo cultura e sociedade.

Aqui, exploraremos essas dimensões diversas e complexas da depressão e, no final, traremos dez estratégias ou pontos únicos e cientificamente respaldadas para lidar com esta condição.

I. Depressão e suas Múltiplas Manifestações

A depressão não é uma entidade monolítica. Apresenta-se de maneiras diferentes em pessoas diferentes, e estas variações podem ser vistas tanto em termos de sintomas como de gravidade. Vamos explorar brevemente as principais categorias de depressão mapeadas:

  1. Depressão Maior (ou depressão clínica): Caracteriza-se por sintomas graves que interferem na capacidade do indivíduo de trabalhar, estudar, dormir, comer e desfrutar da vida. Estes sintomas devem persistir para um diagnóstico de depressão maior. E lembrando sempre, um psiquiatra ou um psicólogo são os profissionais mais adequados para avaliar e diagnosticar. Nada de “opa tenho isso” e já pegar o nome para si, ok?
  2. Depressão Persistente (Distimia): Esta é uma forma de depressão crônica (longo prazo) que dura pelo menos dois anos. Embora os sintomas possam não ser tão severos como na depressão maior, eles são persistentes e podem dificultar significativamente a vida diária. Não é fácil de diagnosticar, até porque a vida não é linear. Então, é importante conversar com seu médico ou psicólogo e levantar essa hipótese para ser investigada.
  3. Transtorno Bipolar: Este transtorno é caracterizado por oscilações de humor que incluem episódios de depressão. As oscilações vão desde mania (extrema euforia) até a depressão. Particularmente, acredito que o transtorno bipolar seja muito complexo, pois requer tempo e entendimento do histórico de vida, sem descartar causas biológicas e culturais do processo.
  4. Depressão Pós-Parto: A depressão pós-parto é uma forma complexa de depressão que ocorre após o parto. Envolve uma combinação de mudanças físicas, emocionais e comportamentais que podem ser esmagadoras para a nova mãe.
  5. Depressão Sazonal (Transtorno Afetivo Sazonal): Este tipo de depressão é geralmente ligado às estações do ano, começando geralmente no outono e continuando durante o inverno.

Essas categorias representam uma tentativa de categorizar a depressão em termos clínicos.

No entanto, é crucial reconhecer que a depressão não se limita a esses limites clínicos estritos. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), amplamente usado para diagnóstico em psicologia, reconhece que os sintomas depressivos podem variar em termos de gravidade, duração, número e tipo, o que sugere uma gama muito mais ampla e complexa de experiências depressivas do que as categorias clínicas podem indicar.

E falamos muito disso por aqui por que a tentativa de entender o que está acontecendo, pode, olha lá. Gerar ansiedade. Pois é, diferente de um problema visivel, quando falamos do transtorno mental, muitas variáveis impactam no dia a dia para taxar-se de bate pronto uma informação.

II. Depressão e Cultura

A depressão não é uma condição isolada dos contextos socioculturais. Como cada cultura tem seu próprio conjunto de normas e valores, as experiências depressivas podem se manifestar de maneiras diferentes. As pesquisas demonstraram que a prevalência, apresentação de sintomas e estratégias de enfrentamento da depressão podem variar significativamente (um jeito bonito de falar MUITTOOOOOO) de uma cultura para outra.

Por exemplo, em algumas culturas, a depressão pode ser expressa mais em termos de sintomas físicos do que emocionais, talvez devido ao estigma associado à saúde mental. A somatização, que é a tendência de experimentar e comunicar o sofrimento psicológico em termos de sintomas físicos, é comum em muitas culturas não ocidentais. O reconhecimento dessas nuances culturais é fundamental para o diagnóstico e tratamento eficazes da depressão.

As diferentes manifestações da depressão em culturas ocidentais e orientais destacam como os contextos culturais podem influenciar a experiência e expressão de doenças mentais. Aqui, é crucial lembrar que estamos fazendo generalizações amplas e, naturalmente, haverá uma considerável variação individual dentro de cada cultura.

Culturas Ocidentais

Nas culturas ocidentais, a depressão tende a ser entendida principalmente como uma doença mental que afeta o estado emocional de uma pessoa. Portanto, o foco diagnóstico é frequentemente sobre os sintomas psicológicos. Esses sintomas podem incluir sentimentos de tristeza ou vazio, perda de interesse ou prazer em atividades, sentimentos de culpa ou inutilidade, e pensamentos de morte ou suicídio – mas nem sempre pode ser tão claro.

Além disso, a depressão é frequentemente vista como um problema individual em culturas ocidentais, atribuído a fatores biológicos ou a eventos de vida pessoal, como luto ou estresse. O tratamento pode incluir terapia, medicamentos (como antidepressivos) ou uma combinação de ambos.

Culturas Orientais

Por outro lado, nas culturas orientais, a depressão pode ser expressa mais frequentemente em termos de sintomas físicos do que emocionais. Isso é chamado de somatização, e é sugerido que ocorre devido ao estigma cultural em torno da doença mental em muitas culturas orientais. Os sintomas físicos comuns da depressão podem incluir dores de cabeça, dores de estômago, dor no peito e dores musculares.

Ademais, nas culturas orientais, a saúde mental e a saúde física são frequentemente vistas como profundamente interconectadas. A depressão pode ser vista como um desequilíbrio geral no corpo, e métodos de tratamento podem envolver tanto abordagens médicas como práticas holísticas, como acupuntura ou meditação.

É importante salientar que essas diferenças culturais na experiência e tratamento da depressão destacam a necessidade de uma abordagem culturalmente sensível ao diagnóstico e ao tratamento. Isso pode envolver a consideração das crenças culturais de um indivíduo, a utilização de métodos de tratamento que sejam culturalmente apropriados, e a consciência das barreiras ao tratamento que podem existir devido ao estigma cultural em torno da doença mental.

III. Depressão e Coocorrência

Um aspecto frequentemente negligenciado da depressão é a sua coocorrência com outras condições físicas e mentais.

Vários estudos têm mostrado que a depressão é muitas vezes acompanhada de outros transtornos, como ansiedade, transtornos alimentares, transtorno de estresse pós-traumático, entre outros. Você pode até ler mais aqui: Depressão e ansiedade: como diferenciar? ou Diferença entre tristeza e depressão: 3 pontos sobre o assunto que devem ser considerados.

Do ponto de vista físico, a depressão também tem sido associada a condições crônicas, como doenças cardiovasculares, diabetes e doenças autoimunes. Essa relação bidirecional entre depressão e doenças físicas requer uma abordagem holística de tratamento que considere a saúde mental e física como interdependentes. Eu por exemplo, sempre requisito que meus pacientes passem por um médico clinico para checar a Tireóide que é um indicador importante desses fatores. Leia este texto aqui.

IV. Uma Perspectiva Não Reducionista sobre a Depressão

Temos aqui, portanto, um quadro complexo da depressão que desafia o modelo biomédico.

Este modelo, que vê a depressão como um simples resultado de desequilíbrios químicos no cérebro, não consegue explicar totalmente as complexidades da depressão. Não podemos ignorar o papel da cultura, do contexto social, da coocorrência e da variabilidade individual na formação da experiência depressiva.

Assim, precisamos de um modelo biopsicossocial que reconheça a interação dinâmica entre fatores biológicos, psicológicos e sociais na depressão. Esta perspectiva não só nos fornece uma visão mais completa da depressão, mas também sugere estratégias de tratamento mais integradas e personalizadas.

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V. Dez Dicas Cientificamente Respaldadas para Lidar com a Depressão

Aqui estão dez dicas baseadas na ciência que vão além dos conselhos comuns e exploram maneiras menos conhecidas, mas eficazes, de lidar com a depressão.

  1. Adapte a terapia à sua cultura: Considere procurar um psicólogo que entenda sua cultura e possa adaptar o tratamento de acordo com isso.
  2. Treinamento de resistência física: Embora o exercício aeróbico seja comumente recomendado, estudos sugerem que o treinamento de resistência também pode ser benéfico na melhoria dos sintomas da depressão.
  3. Aprenda técnicas de auto-compaixão: Práticas de auto-compaixão, que envolvem ser gentil consigo mesmo em momentos de sofrimento, podem ajudar a diminuir os sintomas depressivos.
  4. Procure apoio social: Participar de grupos de apoio comunitários ou online pode fornecer uma sensação de pertencimento e alívio ao compartilhar experiências.
  5. Técnicas de respiração e relaxamento: Aprender técnicas de respiração, como a respiração diafragmática, pode ajudar a gerenciar o estresse e reduzir os sintomas depressivos2.
  6. Atenção à dieta: Estudos sugerem uma ligação entre a dieta e a depressão. Uma dieta rica em frutas, vegetais, grãos integrais e proteínas magras pode ter um impacto positivo na saúde mental.
  7. Faça uso de arte e criatividade: Expressar-se através da arte, seja desenho, pintura, escrita ou música, pode ser uma forma eficaz de lidar com a depressão.
  8. Tente a terapia de aceitação e compromisso (ACT): A ACT é uma forma de terapia comportamental que ensina as pessoas a se engajarem com o momento presente e a aceitar pensamentos e sentimentos difíceis, em vez de evitá-los ou lutarem contra eles.
  9. Conexão com a natureza: Passar tempo na natureza tem sido associado a uma melhora nos sintomas depressivos. Mesmo uma breve caminhada em um parque pode ter benefícios terapêuticos.
  10. Procure ajuda profissional: A depressão é uma condição séria e é importante buscar ajuda profissional se você está enfrentando sintomas de depressão. Profissionais de saúde mental estão equipados para ajudar você a encontrar o tratamento certo para a sua situação.

Concluindo

A depressão é uma experiência multifacetada que se estende além das fronteiras de uma única definição ou experiência. Ela é influenciada por uma miríade de fatores biológicos, psicológicos e sociais, e sua manifestação varia de pessoa para pessoa, de cultura para cultura. Essa complexidade inerente desafia a abordagem reducionista que tende a dominar o discurso público e médico sobre a depressão (principalmente os de tictoks e reels da vida).

Ao olharmos para além dos aspectos convencionais da depressão, é fundamental reconhecer que nossa saúde mental está intrinsecamente ligada à nossa existência física, cultural e social. A depressão não define quem somos, mas é uma parte de nossas histórias individuais e coletivas.

Este texto buscou lançar luz sobre as muitas faces da depressão que são frequentemente negligenciadas ou mal interpretadas. No entanto, há muito mais a ser explorado e entendido. Lembramos que, embora a depressão possa ser uma experiência avassaladora, é também uma condição que pode ser gerenciada e tratada. Você não está sozinho nesta jornada.

Agradecemos por dedicar seu tempo à leitura deste texto. Esperamos que ele possa contribuir para ampliar sua compreensão da depressão e, talvez, abrir novos caminhos de pensamento e ação. Se este texto ressoou com você, convidamos você a compartilhar suas reflexões nos comentários abaixo, ou a explorar mais conteúdos em nosso blog.

Se você se identificou com os sintomas mencionados e acredita que pode estar passando por um quadro depressivo, ou simplesmente gostaria de conversar com um profissional sobre seus sentimentos e experiências, convidamos você a agendar uma sessão de terapia conosco. Nosso time de profissionais está aqui para ouvir, acolher e acompanhar você em sua jornada de saúde mental.

Novamente, obrigado pela leitura. Sua voz e sua experiência são importantes para nós. Nos encontramos no próximo texto. Cuide-se.

Referências

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Lassale, C., Batty, G. D., Baghdadli, A., Jacka, F., Sánchez-Villegas, A., Kivimäki, M., & Akbaraly, T. (2019). Healthy dietary indices and risk of depressive outcomes: a systematic review and meta-analysis of observational studies. Molecular psychiatry, 24(7), 965-986.

Hayes, S. C., Luoma, J. B., Bond, F. W., Masuda, A., & Lillis, J. (2006). Acceptance and commitment therapy: Model, processes and outcomes. Behaviour research and therapy, 44(1), 1-25.

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Mônego, B. G., Fonseca, R. P., Teixeira, A. L., Barbosa, I. G., Souza, L. C. de ., & Bandeira, D. R.. (2022). Major Depressive Disorder: A Comparative Study on Social-Emotional Cognition and Executive Functions. Psicologia: Teoria E Pesquisa, 38, e38217. https://doi.org/10.1590/0102.3772e38217.en

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