Tem um bipolar na minha vida

2 min de leitura · 

Pois é, você cresce, escolhe ser psicóloga e pensa que nunca vai precisar enfrentar alguns problemas na sua própria casa, mas eis que numa noite fria e escura, seu querido irmão caçula tem um surto daqueles que você só tinha visto em filmes, a ponto da pessoa precisar ser amarrada pra não matar alguém :/

Começa aí uma longa jornada até a descoberta do TAB (transtorno afetivo bipolar), incluindo dezenas de internações, sofrimentos, medos, frustrações e aprendizados. Eu ainda me lembro do dia em que eu e meu pai o levamos para o hospital, olhar para o meu pai e para o medo estampado em seu rosto era desesperador, olhar para minha mãe e ver a dor de ter o seu filho amarrado era desconsertante, olhar para o meu irmão alí, tão irreconhecível e, mesmo sendo psicóloga, tendo estudado como agir nesses casos e aprendido toda a teoria sobre a doença, era frustrante.

Convivemos com os delírios, com as vozes desconhecidas na cabeça dele, com as afrontas, com os desafios, por algumas semanas. Ele ficou internado na psiquiatria e depois de um tempo voltou pra casa, catatônico por tanta medicação. Foram mais algumas semanas, meses, veio uma melhora e logo depois outras tantas crises de mania bem feias. Foi assim por um bom tempo, até que surgiu um mar de lama chamado depressão. Ele não saia da cama, não comia, parecia definhar. Mais remédio, médicos novos, internação, terapia… melhorou, ufa!

Que nada, novas crises de mania, que agora se alternavam com semanas tranquilas e depois semanas desesperadoras de tristeza profunda e apatia total. Meus pais nesse tempo todo oscilavam entre a raiva e a falta de compreensão, a culpa e o amor incondicional. Sofreram muito. Sofrem a cada nova crise, a cada alteração de remédios, mas hoje, depois de alguns bons anos, aprendemos que juntos podemos superar qualquer coisa, que buscar ajuda faz toda a diferença, que ter suporte médico e psicológico é indispensável.

Hoje, depois de sete anos ainda passamos por desafios, mas ele, o meu irmão, está sem dúvida alguma, muito melhor. A terapia o ajudou a perceber quando uma crise está começando, ajudou a resignificar muita coisa e acima de tudo, ajudou a usar o TAB a seu favor, seja na criatividade, na reflexão ou no simples falar com alguém sobre como é, compartilhar experiências e buscar mais equilíbrio.

Se você tem dúvidas sobre o TAB ou sobre como lidar, deixe um comentário. Teremos muito prazer em te ajudar.

Veja também outros textos sobre bipolar:

PDF do Google Health sobre o Transtorno de Ansiedade Bipolar

SUS oferecerá tratamento para transtorno Bipolar 

Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos – ABRATA

Você vai gostar de ler também:

Raquel Ferreira
CRP 6/101759 - Graduada pela Universidade São Francisco, mestre em Ciências da Saúde pela Coordenadoria de Controle de Doenças do Estado de São Paulo. Psicóloga clínica desde 2010, busca constante aprimoramento na abordagem analítica. Estudou Cinesiologia no Instituto Sedes Sapientiae, frequentou grupos de estudo e supervisão teórica na Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica de São Paulo e ainda, integrou o grupo de Neurociências do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Atualmente é doutoranda em Psicologia Social, pela Universidad Complutense de Madrid.

Raquel Ferreira

CRP 6/101759 - Graduada pela Universidade São Francisco, mestre em Ciências da Saúde pela Coordenadoria de Controle de Doenças do Estado de São Paulo. Psicóloga clínica desde 2010, busca constante aprimoramento na abordagem analítica. Estudou Cinesiologia no Instituto Sedes Sapientiae, frequentou grupos de estudo e supervisão teórica na Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica de São Paulo e ainda, integrou o grupo de Neurociências do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Atualmente é doutoranda em Psicologia Social, pela Universidad Complutense de Madrid.

2 thoughts to “Tem um bipolar na minha vida”

    1. Olá, Ludmila!
      Em primeiro lugar, se a pessoa não sabe que tem TAB, é porque não deve ter consultado um profissional capacitado para dar-lhe o diagnóstico, certo? Mas se existe a suspeita, o ideal é, com muita paciência, conversar com a pessoa, apresentar textos que ela possa ler e se identificar e, a partir daí começar a pensar na possibilidade de buscar ajuda e tratamento.

Participe, queremos ler o que você tem a dizer