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Sobre um psicólogo chorar

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2 min de leitura · 

Eu, futura psicóloga, sempre fiquei imaginando como seria atender um monte de pacientes e ainda assim, manter um distanciamento saudável de seus problemas. Até que descobri que teríamos aulas para aprender isso. Foi então, que ouvi: “psicólogos não podem usar esmalte escuro, não podem ter piercings, tatuagens, usar roupa com decote, não podem sorrir, nem interferir e chorar nem em pensamento”. Nesse dia sai da sala de aula tentando descobrir como eu faria para me tornar uma folha de alface, sem expressão e praticamente sem identidade. Os anos foram seguindo, as aulas práticas na clínica chegaram e com elas as minhas primeiras “dificuldades”. Em alguns momentos as emoções vivenciadas no setting eram tão intensas e eu tão sensível que o choro por vezes ficou engasgado na goela. Fui atuar na UTI de um hospital, histórias fortes, medos, tristezas, recuperações, mortes… mais choros contidos em mim e a cada saída do hospital um pedaço da minha emoção começava a petrificar e eu comecei a não me reconhecer, as palavras daquela professora ardiam no meu pensamento, me faziam ter medo de não ser uma boa profissional se eu chorasse, se demonstrasse minhas emoções e foi então, que numa das aulas mais maravilhosas que já presenciei, uma outra professora chorou ao ouvir meu relato sobre um dos casos no hospital, dizendo que as emoções eram parte inerente do ser humano e que nem sempre deveríamos reprimi-las.

A folha de alface começava a murchar e um ser humano recomeçava a nascer, eu só não sabia ainda como seria o resultado da emoção . Os anos passaram, a faculdade acabou e
dia desses no meu consultório uma paciente conta sobre a dor que sente ao saber da doença de sua filha, sobre o medo que tem de perde-la e sobre como sente-se impotente frente ao problema. Havia tanta dor em sua fala que não consegui conter algumas lágrimas nos cantinhos de meus olhos e para minha grande surpresa e felicidade, no final da sessão ela agradeceu por meu choro, sentiu-se acolhida, compreendida e eu, me senti um ser humano, com as técnicas de uma psicóloga, que pode sim, enfim chorar!

Hoje posso dizer que aquela primeira professora talvez esteja errada, porque compreendo que por vezes o paciente precisa ser ouvido de uma outra maneira e isso se aprende a fazer com o coração e com a sensibilidade. Compreendo e aprendi todas as técnicas que a faculdade me proporcionou, inclusive as de acolhimento, uso-as, mas às vezes a emoção surge e hoje eu apenas permito que ela faça parte de mim, do meu trabalho e aceito que no meio da memória cheia de técnicas de como ser psicóloga, caiba também, um coração.

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Raquel Ferreira

CRP 6/101759 - Graduada pela Universidade São Francisco, mestre em Ciências da Saúde pela Coordenadoria de Controle de Doenças do Estado de São Paulo. Psicóloga clínica desde 2010, busca constante aprimoramento na abordagem analítica. Estudou Cinesiologia no Instituto Sedes Sapientiae, frequentou grupos de estudo e supervisão teórica na Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica de São Paulo e ainda, integrou o grupo de Neurociências do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Atualmente é doutoranda em Psicologia Social, pela Universidad Complutense de Madrid.

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  • Sobre se a(o) psicóloga(o) deve chorar ou não, quero contar a seguinte história. Sou psicólogo formado na UFBA e nos primeiros semestres temos uma atividade em equipe de campo. A minha era um projeto de intervenção num abrigo para crianças que não podiam estar com seus pais porque foram abandonadas, por maus tratos, uso excessivo de drogas dos pais, etc. Na apresentação final, fiz um vídeo com fotos de todas as visitas que fizemos, mostrando nossos primeiros e temerosos passos com aquelas crianças tão castigadas pela vida, como fomos errando e aprendendo na prática e descobrimos que fazer Psicologia era cuidar do outro. Ao final da apresentação, a professora (bem experiente na Academia) estava chorando e brincando disse que nós não podíamos fazer aquilo com ela. Respondemos que a "culpa" era dela por nos ensinar o belo caminho que trilhamos durante aquele semestre. Foi um dos dias mais emocionantes da minha vida!

    • Rodrigo, é tão bom quando a gente pode sentir e expressar as nossas emoções, né?! Para mim isso é uma maneira incrível de crescermos e amadurecermos dentro da nossa profissão. Parabéns pela sensibilidade!

  • Olá Raquel.

    Eu estou emocionada com o seu relato, simplesmente emocionada, parece que você relatou a minha história, estou passando pelo mesmo problema e eu vou começar a atender na UTI nesse próximo semestre e estava preocupada como eu iria reagir e como iria poder conter minha emoção. Muito obrigada por dividir conosco a sua história. Eu quero muito poder ler o seu texto em um vídeo mo meu Canal e na minha faculdade para os meus colegas de classe e gostaria de saber se você me permite, o seu texto é e será um divisor de água para muito de nós, futuros psicólogos.

    Um mega beijo.

    • Alexs, é uma honra e uma alegria para mim poder tocar as pessoas com o que escrevo e vivencio, fique à vontade para fazer o vídeo e por gentileza, nos envie para compartilharmos em nossa página também ;)
      Com carinho e gratidão,
      Raquel

  • Se me permitem a partilha, quando estava no último ano do curso e decidi que gostaria de estagiar num colégio de menores delinquentes ligado ao Instituto de Reinserção Social, ponderei retirar ou não um piercing que tinha. Por um lado acreditava que o devia manter, por outro temia fazê-lo; em parte porque algumas opiniões de professores de anos anteriores iriam com certeza nesse sentido.
    No final do último encontro com aquele que iria ser o meu orientador no local de estágio, antes de iniciar o mesmo, partilhei este dilema e pedi-lhe a sua opinião...muito tranquilamente o Dr. Carlos sugeriu quando chegasse a casa qme olhasse no espelho e encontrasse a resposta a essa questão! "É o seu primeiro trabalho de casa"-disse sorrindo.
    Ainda hoje uso o dito piercing e trabalho num lar de menores em risco. Quando lá comecei, uns anos depois do estágio com os jovens infractores, já não me questionei sobre retirar ou não esse adereço, faz parte de mim. Exerço quem sou e sou quem exerço, em parte graças ao fantástico Dr. Carlos, ainda bem que assim foi.
    Psicólogos competentes com lágrimas/emoções?! Há pois, claro que sim
    Um bem haja *

    • Que gostoso receber sua partilha Susana, creio que se nos alteramos em função da profissão, nos alteramos enquanto pessoa e deixamos de ser um profissional "completo". <3

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Raquel Ferreira

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