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Categories: Caixa de Segredos

Primeira Sessão de Psicoterapia: O que fazer quando não gostou?

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7 min de leitura · 

Primeira sessão: Esse texto foi elaborado em resposta a uma caixa de segredos. Nela pessoa relata ter receio de procurar ajuda psicológica, após ter se sentido desconfortável com as perguntas feitas na primeira sessão com um psicólogo.

Sabendo que isso acontece com diversas pessoas, destino este texto a quem já foi a uma (ou mais) sessão de psicoterapia, não gostou, e tem receio de procurar um psicólogo novamente.

Falaremos sobre as frequentes dificuldades em procurar psicoterapia. Quais os possíveis motivos de uma primeira sessão não ser satisfatória ou ser ruim? E quais os caminhos possíveis para serem tomados a partir daí?

Buscar psicoterapia pode ser difícil

Buscar ajuda psicológica nem sempre é uma tarefa simples, principalmente quando isso é feito pela primeira vez.

Isto porque a pessoa que irá procurar um psicólogo, até de fato comparecer à sessão, vai enfrentar diversos obstáculos.

Entre eles podemos citar:

– O estigma social que diz que ir a um psicólogo é sinal de fraqueza, coisa de louco.

– O próprio preconceito que nutre a respeito de psicólogos.

Medos e fantasias a respeito do que vai acontecer na sessão.

– Mecanismos de autossabotagem que podem fazer alguém ir procrastinando a ligação para agendar, ou até que falte ou se esqueça depois de marcar.

– Disponibilidade de tempo e dinheiro.

Ou seja, para muitas pessoas é preciso estar pronto interna e externamente para a psicoterapia, o que às vezes exige uma dose de coragem e empenho.

Após superados tais obstáculos, independente de quais sejam, ainda há o risco da pessoa não gostar da sessão.

Quando isso acontece, a dificuldade em voltar a procurar outro psicólogo tende a aumentar ainda mais.  Após toda a mobilização para ir a um e não ser bom, dificilmente vamos nos sentir motivados a tentar novamente.

Porém preciso ressaltar que não tentar novamente, com o mesmo profissional ou outro, significa deixar de cuidar de si e da sua saúde.

Ao desistir de procurar ajuda psicológica, estamos dizendo: minha saúde emocional ou mental não vale o esforço de exigir ou procurar pelo melhor profissional para mim.

Por que a sessão foi ruim?

Antes de tudo vamos ressaltar que o que é “ruim” é subjetivo, e por isso não é possível fazer uma lista exata do que faz uma sessão ser ruim.

Mas existem vários motivos possíveis e vamos listar alguns aqui. Vamos tentar dar nome às situações e mostrar que nenhuma delas significa que você deva simplesmente desistir.

1) Expectativas:

Mesmo sem querer, sempre criamos expectativas a respeito de algo que não conhecemos. Quando vamos à primeira sessão de psicoterapia, também.

Vale a pena refletir quais expectativas foram criadas a respeito da sessão, pois, nem sempre estamos conscientes delas. Uma boa forma para descobrir isso é pensar nos momentos da sessão que, para você, foram desagradáveis.

Será que era esperado que o psicólogo agisse como um melhor amigo? Que concordasse com tudo o que você dizia? Que você deitasse em um divã e repentinamente tivesse várias revelações a respeito da vida e de si mesmo?

2) Perguntas desconcertantes:

Praticamente todos nós possuímos alguns temas tabus. Temas que não gostamos de abordar. Sexo costuma ser um deles.

O trabalho do psicólogo consiste, boa parte, em fazer perguntas para investigar nossa dinâmica psíquica (quase como entender nosso software, nossa programação) e por vezes podem fazer perguntas que, para o paciente, são delicadas ou sentidas como intrusivas.

Essa questão é complexa e envolve vários fatores, mas vou citar dois que considero serem chaves.

 – Às vezes a pessoa está fragilizada (que é o momento em que muitas pessoas decidem procurar um psicólogo) estando mais sensíveis a palavras ou condutas dos outros.

– Por vezes o psicólogo não fez a pergunta de forma adequada ou no momento adequado. E isso pode denotar falta de profissionalismo, porém nem sempre, podendo ser uma questão mista entre a personalidade do terapeuta, técnica, e experiência.

  3) Não houve uma conexão boa

As pessoas são diferentes entre si. Os psicólogos também. E nem sempre há uma conexão boa com aquele profissional que se encontra à sua frente.

Não há um culpado, é simplesmente uma questão de “encaixe”. Assim como não nos apaixonamos ou fazemos amizade com todas as pessoas que cruzam o nosso caminho.

4) A abordagem do psicólogo

Já ouvi relatos de pessoas dizendo que fizeram terapia e não funcionou ou não gostou: “só fiquei falando, foi muito estranho”; “me deu tarefas para fazer, não gostei”.

É importante saber que nem toda psicoterapia é igual, existem diversas abordagens diferentes em psicologia, e por vezes nos damos melhor com uma ou outra.

Para dar um exemplo: Conversando com uma colega que fez terapia comportamental por um tempo, ela me falou que resolveu sua queixa, mas não pode trabalhar questões que ela considerava mais profundas antes de receber alta, se sentindo feliz por ter uma questão importante resolvida, mas angustiada, pois, queria se conhecer mais.

5) O profissional foi antiético

Aqui valeria mais um texto apenas sobre esse tema, mas vamos tentar resumir a pontos chaves e observáveis pelo paciente.

– O profissional vai além da relação terapêutica: dar em cima do paciente, convidar para sair, ou qualquer insinuação sexual ou romântica.

– Ir contra seus valores e crenças: desrespeitando a religião, orientação sexual, moral pessoal. Por vezes o psicólogo pode fazer questionamentos de condutas a fim de promover uma reflexão, mas frases como “homossexualidade é uma doença”, “Deus não existe” (para uma pessoa religiosa) são fortes indícios de falta de ética profissional.

– Julgar ou minimizar seus problemas: frases como “mas isso é uma frescura da sua parte” indica que o profissional não consegue empatizar com o paciente.

A falta de profissionalismo ou falta de ética é algo muito sério e pode ser, inclusive, reportado ao Conselho de Psicologia da região.

Devo tentar novamente com o mesmo psicólogo ou procurar outro?

O que determina essa resposta é a vontade da própria pessoa. O importante é não desistir de fazer um tratamento psicológico.

Se existe vontade de voltar ao mesmo profissional, pode-se perfeitamente dar-se outra chance.

Se houve algo na sessão anterior que causou incômodo, isso pode ser abordado para que não se comece uma relação de tratamento com mágoas ou desconfianças. Aliás, isso pode e deve ser abordado a qualquer momento na psicoterapia.

Afinal, psicoterapia é um processo no qual a pessoa se implica para resolver suas questões, com a ajuda instrumental do psicólogo. É perfeitamente aceitável falar “não gostei quando você disse tal coisa” e ir trabalhando a partir daí.

Porém, se não há desejo de ver aquele profissional novamente, acredito que isso deve ser respeitado. Não há necessidade de forçar algo que não se quer, neste caso, já que existem outros profissionais.

Lembrando que nem sempre fazer psicoterapia será um mar de rosas. Tocamos em questões dolorosas, choramos, às vezes saímos da sessão com sentimentos negativos, pois isso faz parte do processo de crescimento.

É possível se informar a respeito das abordagens na psicologia para saber com qual mais se identifica, além das modalidades de psicoterapia como individual ou em grupo.

Para finalizar, gostaria de compartilhar um trecho da minha história sobre isso:

Quando era estudante de psicologia, meus professores sempre enfatizavam que um profissional de psicologia precisa cuidar da própria saúde mental para poder cuidar bem da saúde mental dos outros (hoje eu sei o quanto isso é verdadeiro).

No quarto ano tive condições de procurar terapia. Agendei uma primeira sessão, quando a psicóloga me chamou para entrar na sala fui entrando e disse “com licença”, em seguida a psicóloga perguntou: “Por quê com licença?”.

Essa pergunta simples, que pode ter sido feita na intenção de já me por a refletir sobre minhas palavras, me travou. Senti-me em interrogatório, como se o mínimo movimento meu fosse colocado sob uma lupa.

Respondi tentando me explicar: queria ser educada. A psicóloga se explicou, mas de nada adiantou. A sessão que durou 40 minutos, para mim, acabou ali. Seria inviável fazer minha terapia com alguém com quem não me sentia confortável.

Felizmente, busquei outros psicólogos até encontrar uma com quem realmente me senti bem. Não foi encanto à primeira vista. Mais falei do que ouvi na primeira sessão, mas quis continuar, e continuei, por 6 anos.

Não tenho dúvidas de que a primeira psicóloga a quem fui era boa, e que ajudou e ainda ajudaria muitas pessoas. Só não rolou comigo. Eu estava na defensiva por fazer algo pela primeira vez e pouco aberta a reflexões logo de cara. Talvez por não estar fragilizada, sem questões urgentes a tratar, continuar a procura foi algo fácil.

Por isso, independente de sua escolha, vale a pena procurar por um psicólogo com quem você se identifique, sinta confiança e empatia, para permitir que o tratamento flua e gere resultados.

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Thais Tamara

Psicóloga graduada pela Universidade Paulista, e especialista em Psicologia Hospitalar pela Faculdade de Medicina da USP.

Atuo como psicoterapeuta clínica desde 2014 em São Paulo nos bairros Vila Madalena (ZO) e Jardim São Paulo (ZN) com adultos e adolescentes, sou palestrante sobre temas de saúde mental e emocional e co-fundadora do Projeto Re-Criar, que visa a aproximação e discussão de temas psicológicos do universo feminino. Na minha prática utilizo a abordagem psicodinâmica, que aborda os conflitos inconscientes e busca, a partir do vínculo e comunicação entre paciente e terapeuta, a superação de conflitos e o amadurecimento emocional da pessoa, para que se viva da melhor maneira possível. 06/11.843-0 Contato: (11) 9.6797.3939

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