man carrying baby drawing their foreheads

Os anseios da paternidade: 5 pontos para pensar

Paternidade é um tema que vem ganhando espaço, mas que ainda é fruto de diversas visões e contradições. 

Não é para menos. Em um país de proporções continentais como o Brasil as realidades são as mais diversas, não é?

Quase 100 mil crianças nascidas em 2021 não têm o nome do pai no registro civil. Os dados são da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil). [2] 

E não para por aí. Várias contradições do nosso País e cultura influenciam nessa jornada, tanto para os recém empossados papais quanto para com as pessoas que o cercam.

Ainda assim, a paternidade pode ser compreendida como uma construção social, sofrendo modificações na forma como é vivida e exercida em virtude de transformações da sociedade.

Significa que “ser pai” está muito ligado em SER algo neste tempo presente, no hoje, tornando-se e assumindo um papel real com relações tangíveis e diárias, diferente de uma idealização de paternidade que “vaga” nos nossos pensamentos, mas estou me adiantando…

Este post será para todos aqueles (e aquelas) que querem compreender melhor a paternidade nos dias de hoje com 5 pontos para se pensar a respeito. 

Se há o exercício de uma paternidade saudável, responsável, afetiva e que não sacrifique o psicológico de ninguém, o primeiro passo é considerar alguns desses pontos.

Vem comigo?

Primeiro, quero que você pense e veja se concorda, que há sempre um “peso” sobre esse termo: ser PAI. E para os haters de plantão, não estou dizendo que “ser mãe” não tenha peso, mas estamos falando de paternidade neste texto aqui… 😉

O “Ser Pai” vem carregado de uma nova vida repleta de responsabilidades, obrigações, adversidades e prazeres… Se não vem, já tem aí cheiro de um probleminha de entendimento… mas sigamos.

Além disso, há um distanciamento pois a geração do bebê está no corpo da mãe e por mais que se interaja com a barriga, com o processo nidificação (construção do ninho e processo de gestação) há uma diferença no modelo que se instaura no “ser ou tornar-se pai”.

Pois é, o “pai” ou a parentalidade vem carregado tanto por uma imagem densa de uma sociedade patriarcal (onde a figura de um pai idealizado persiste nos nossos pensamentos) quanto carrega um despreparo na sua construção e no papel do homem moderno que ajudou a gerar um outro ser humano.

Também tem toda uma herança religiosa (pai, padre, father, feith…) e uma visão conservadora em relação a temas como machismo, cuidados, sensibilidade e toda a violência ligada à figura masculina daquele que tem ou deveria ter 50% da responsabilidade além dos 50% dos cromossomos.

Quem nunca escutou ou leu a frase: “pai é aquele que cria”? 

Quem não conhece uma mãe solo porque o pai da criança “escafedeu-se”? [1] Famílias chefiadas por mulheres já somam 40,5% do total das famílias brasileiras segundo os dados de pesquisa.

Quem não conhece um “pai que não liga”?

Pergunto: você conhece mais pais que têm uma parentalidade responsável, afetiva, participativa e ativa ou o oposto? Deixa nos comentários para a gente saber.

Mas retomando, embora a frase que “pai é aquele que cria” seja consoladora, ela também “passa o pano” para algo que é importante no desenvolvimento da criança e na aquisição do genitor, do seu papel de pai.

Aquele que faz também tem participação (ou deveria ter) e, se pararmos para olhar mais friamente sobre os mais diversos aspectos, são poucos os meninos preparados ou que possuam estrutura para assumir esse papel paterno – não diferente das meninas que viram mãe – mas, o conjunto de fatores, acaba aliviando os comportamentos masculinos que poderiam ter significados diferentes.

Para resumir: ao iniciar o processo de tornar-se PAI ou adquirir todos os atributos da paternidade, o menino, jovem, homem deve se deparar com a realidade social que vivencia. 

Precisa olhar para dentro de si e perceber que há um sistema patriarcal, machista e violento que envolve essa dinâmica. 

Nesse ponto, esse novo pai não pode se deixar abater ou dominar por estereótipos que são impostos pela sociedade, até porque não é com ele só, mas consiste no tempo que vivemos hoje e que deve ser trabalhado individualmente.

E assim, trabalhando internamente, a aquisição desse novo papel da paternidade poderá ser exercido plenamente.

Mas vamos aos 5 pontos para pensar sobre os anseios da paternidade que esse é o foco do texto. Lembrando, que se curtiu o assunto, comente, assim posso continuar nesse tema para um próximo post, ok?

O que vem junto com a paternidade além das fraldas?

man carrying a baby paternidade
Photo by Josh Willink on Pexels.com

1. Será que vou dar conta?

Essa é uma pergunta tão violenta para aquele que olha para si mesmo. 

Dar conta tem relação com um pagamento, uma dívida que já vem pendurada. “A conta” por favor! Não é assim que as coisas funcionam na paternidade. 

Dar conta do que? De ser pai? Você já é ou não? Já existe um bebê? 

Dar conta de que? De trabalhar e modificar seu comportamento? 

Dar conta de que? De assumir um novo papel na sua vida? De viver? De ser responsável? Você já não o é?

Será que você vai dar conta do que?

Perguntar isso, sem ser claro consigo mesmo, deixa aberta a porta para as ansiedades em relação a tantas coisas que não acontecerão necessariamente. 

Cenários e mais cenários vão se desenrolar e você entrará em um looping infinito de possibilidades.

Se você já engravidou alguém, você já tem responsabilidades novas. 

A situação está no presente. 

Vamos trabalhar na pergunta certa, por que “será que vou dar conta”, não é uma delas e não há uma resposta clara para essa pergunta.

2. Como é que faço isso?

Ah! Eu também gostaria muito de um manual. 

Aliás na bibliografia tem alguns conteúdos que podem seguir nessa linha e até dar dicas interessantes e importantes. 

Tem várias orientações, cartilhas, pessoas que indicam conteúdos do que você terá que fazer. A resposta é: adquirindo conhecimento, escutando e fazendo. 

Use a sua rede de apoio. Use o exemplo dos seus pais, amigos, família para definir o que você quer, pode, deve fazer ou não. 

Analise as consequências que aconteceram. Prepare-se mas não entre em paranóia, pois ninguém, absolutamente ninguém tem uma resposta clara, verdadeira e mágica. 

Leia, converse, tire suas dúvidas, pergunte, agende um horário com um psicólogo para orientação parental, por exemplo. 

O como fazer isso é o que mais tem por aí. 

Culturas diferentes geram paternalidades diferentes. Tempos diferentes geram pais diferentes e crianças que precisarão de ferramentas de sobrevivência diferentes.

O como, é você que negociará em casa. A dica aqui, penso eu, é ser responsável, compreender onde você se encontra e o seu papel nessa paternidade. 

Que tipo de pai você será? O que você está fazendo agora? Esse é o ponto que você tem que mudar, melhorar ou deixar para trás hábitos que não serão agregadores para você, seu bebê e sua família.

3. O futuro e o passado estão conflitando, e agora?

Trabalho sempre com meus pacientes no presente. 

O passado você não tem a capacidade de modificar, o futuro, a única coisa possível de alteração é no plano.

A execução desse plano está aqui, no presente, com todas as relações, variáveis que trocam entre potências e fraquezas a serem desenvolvidas. 

Quando você observa o passado, precisa considerar que não é sobre você apenas o papel da paternidade. 

Aqui no site já falamos de responsabilidade, alteridade, limites, possibilidades, medos e tantas coisas que estão neste conflito.

O ponto, prezado leitor ou leitora, é que devemos olhar o passado para entender o que podemos aprender e melhorar. 

Precisamos observar o que atrapalha e o que ajuda. 

Precisamos avaliar e ponderar. 

Colocar em prática aquilo que é viável, possível e que fará bem para o desenvolvimento pessoal e coletivo, nesse caso, iniciando pela paternidade, pela maternidade, família, grupo social e assim por diante.

Se passado e futuro conflitam, observe o presente. Faça aquilo que precisa para que esse processo possa ser seguido. 

Assuma a responsabilidade e compreenda, que opinião muitos terão, mas que é no seu dia a dia que você poderá colocar afeto, participação, responsabilidade e muito mais.

4. A idealização e a materialização da família

Penso também que a idealização que se constrói e que ronda o dia a dia está entre os principais dilemas do novo pai. Será que você compreende o que digo com a idealização da paternidade? 

Façamos um exercício: descreva mentalmente o que você acha que é ser um pai ideal, agora compare com uma pessoa real. Será que o ser humano incumbido desse papel ideal é capaz de dar conta dessa idealização? Tem as ferramentas e habilidades necessárias?

Há aqueles que não tiveram modelos, há os que tiveram modelos muito ruins, há modelos que já não se encaixam nas necessidades do dia a dia e nem aqueles que virão no futuro.

Perceber que essa ideia é diferente do material, do concreto, faz parte de construir diariamente a família que surge.

Você nunca trocou uma fralda. Troque. Você nunca imaginou carregando um bebê em uma noite de cólica. Carregue. Você nunca imaginou ser pai, não imagine, seja.

Quando você para de idealizar e adquire as habilidades, quando você para de idealizar e pede ajuda, é aí que você se torna o pai. 

Estando presente. Aprendendo junto. Até porque, assim como nasce uma mãe como um bebê, também está a potência de nascimento de um novo pai.

5. Os mais diversos palpites e palpiteiros.

Isso não faltará: palpites e palpiteiros na paternidade. Faça isso, faça aquilo, não faça isso ou aquilo. Escute, há coisas que podem ser aproveitadas, mas filtre, também existirão coisas que devem ser descartadas.

Parte do início, você é o novato no assunto. Você deverá aprender com seus erros e não punir-se por eles. Não deixe de tentar, de participar, de se envolver.

E o que é uma paternidade responsável e afetiva?

Nesse ponto é o principal: afeto.

Afete e seja afetado pela paternidade. Viva-a nos seus receios e também nas suas alegrias. Comece pelo básico: 

Participe das consultas de planejamento reprodutivo.

Apoie a parceira durante a gestação, o parto e o pós parto, estreitando o vínculo familiar.

Realize as consultas de pré-natal com sua parceira.

Realize os exames solicitados durante as consultas de pré-natal.

Seja carinhoso e afetuoso com o(a) seu(sua) filho(a) e sua parceira. Vocês estão descobrindo isso juntos.

Compartilhe com a parceira as tarefas domésticas.

Compartilhe com a parceira os cuidados com a criança como: dar banho, trocar fraldas e roupas, alimentar seu(sua) filho(a), colocar para dormir, entre outros.

Acompanhe nos cuidados com a saúde, levando a criança para realizar consultas e para tomar vacinas.

Acompanhe a criança na escola/creche e nos estudos de casa.

Brinque, passeie e fale com a criança.

Mantenha um clima de respeito com a parceira e a criança. Evite violência.

Fale e escute os medos, as angústias que surgem durante a gravidez. Conversar com a parceira e procurar um profissional de saúde para esclarecer suas dúvidas.

Participe da realização dos ultrasons e tire suas dúvidas sobre o desenvolvimento da criança.

Incentive a amamentação e compartilhe com a parceira esse momento. Aprenda a amamentar com a mãe. Entenda. Veja como se faz. Acompanhe.

Faça uma visita prévia na maternidade onde a criança nascerá… 

Viva cada momento o máximo que puder, e esses laços, essa responsabilidade fará com que a paternidade seja um papel importante na sua vida.

Espero que este texto tenha ajudado você nesse processo de paternidade. Digo mais, mesmo você já sendo pai, pode mudar o seus conceitos e significados, mudando suas atitudes e comportamentos.

Espero de verdade que ao ler este texto desperte algo e que você saiba que uma alternativa de apoio é a orientação parental que você encontra nos profissionais de psicologia. 

Não é uma receita de bolo que você pode seguir, mas com base em ciência, você tenderá a dirigir seus esforços para uma qualidade de vida mais adequada.

Que sua saúde mental melhore e que você seja o pai que você consegue, com suas forças e que possa, ajudar o seu ou a sua pequena a se transformar em um adulto melhor que todos nós. 😉

Até o próximo texto! 

Ah! Se você gostou, tem dúvidas deixe seu comentário. Agende um horário. Estamos à disposição e tentamos responder todo mundo que participa por aqui. 😉 

Referências:

[1] https://promundo.org.br/wp-content/uploads/2019/08/relatorio_paternidade_promundo_06-3-1.pdf

[2] https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/numero-de-criancas-sem-o-nome-do-pai-na-certidao-cresce-pelo-4-ano-seguido/ 

Como exercer uma paternidade ativa

Sentimentos sobre a paternidade e o envolvimento paterno: um estudo qualitativo

Backes, Mariana Schubert, Becker, Ana Paula Sesti, Crepaldi, Maria Aparecida, & Vieira, Mauro Luís. (2018). A paternidade e fatores associados ao envolvimento paterno. Nova Perspectiva Sistêmica, 27(61), 66-81. Recuperado em 05 de outubro de 2022, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-78412018000200006&lng=pt&tlng=pt.

Visentin, Patrícia Menezes e Lhullier, Cristina Representações sociais da paternidade: um estudo comparativo. Fractal: Revista de Psicologia [online]. 2019, v. 31, n. 3 [Acessado 28 Setembro 2022] , pp. 305-312. Disponível em: <https://doi.org/10.22409/1984-0292/v31i3/5640>. Epub 02 Dez 2019. ISSN 1984-0292. https://doi.org/10.22409/1984-0292/v31i3/5640.

Clique para votar
[Total: 6 Average: 5]

Psicólogo CRP 06/154.661 - Formado Psicologia e em Administração com ênfase em Marketing, geek que respira tecnologia, pesquisador e mestrando em tecnologias da inteligência e design digital. É um dos fundadores do Psico.Online e do MeuPsicoOnline.com.br. Com diversos artigos e livros publicados tem sua atuação focal em jovens, adultos e idosos. Agende comigo

Sobre o autor

Gostaríamos de escutar o que você tem a dizer.

Scroll to Top