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“Odeio minha família” é uma frase que vem se popularizando por aí – não gosto de ser generalista, então vou especificar: na clínica e no Twitter, por exemplo. Com o surgimento de termos como relacionamento tóxico, mães e pais narcisistas, famílias desestruturadas ou famílias ultraconservadoras unido ao fato de vivermos uma pandemia que colocou todo mundo em casa, o “odeio minha família”, pelo menos em alguns lugares virou hit.

Contudo, o que está implícito nesse termo carregado de sentimentos ruins? Odeio minha família chega a pesar o ambiente e denunciar que nossos lares andam sob influências que incomodam, entristecem, geram frustração e raiva em um lugar que, a priori, deveria ser de sentimentos menos extremos.

Quando alguém diz “odeio minha família”, traz consigo informações das mais diversas: pais e mães ausentes ou super e exageradamente presentes, inversão de papéis, problemas de relacionamento entre aqueles que compõe a família pelos mais diversos motivos.

Podemos, por exemplo, seguir por um caminho do individualismo versus a convivência comunitária, sobre a hierarquia e os limites, sobre as diferenças de autoridade e autoritarismo e violências que acontecem na relação intra-familiar como causas prováveis desse desconforto.

No artigo sobre configurações familiares de Pereira Neto et all [2] há uma definição de família para uma visão da psicologia:

A Psicologia entende a família como um conjunto de relações caracterizadas por influência recíproca, direta, intensa e duradoura entre seus membros (DE ANTONI, 2005). Esse conjunto de relações é interiorizado por eles, formando padrões de relacionamento que se integram à subjetividade do indivíduo (ROUDINESCO, 2003).

Ou seja, podemos levantar a questão que se há tantos indivíduos odiando suas famílias, como será que seus outros membros têm se comportado e que influencias diretas e reciprocidades têm acontecido nesse cenário?

Odeio minha família, o que eu faço?

A primeira coisa é entender qual é a dinâmica que você está inserida ou inserido. Quais os motivos que estão ligados a esse sentimento de ódio? O que está acontecendo, acontece apenas com você ou se estende a outros membros? Quem são os pontos focais desse ódio e a razão pelo qual ele tem ficado tão presente?

As vezes atribuímos “culpa” e sequestramos responsabilidades deixando de entender o contexto que estamos vivenciando e nesse ponto, há de se buscar equilíbrio e quebra de um ciclo de repetição.

Há possibilidades de unir forças e reconstruir ambientes ruins?

Segundo Dessen [1], a família, hoje, é o resultado da combinação de diferentes papéis e padrões relacionais, baseados na valorização da solidariedade e da fraternidade, na ajuda mútua e nos laços de afeto e de amor (HINTZ, 2007). No cotidiano, encontramos famílias seguindo modelos nucleares, casais dividindo os cuidados dos filhos e da organização familiar, mulheres e homens assumindo, independentes, o sustento da família (monoparentalidade) (OLIVEIRA et al., 2008; OLIVEIRA, 2009), uniões consensuais de parceiros separados ou divorciados (LOBO, 2009), casais sem filhos, casais homossexuais, casais com filhos adotivos, avós com os netos, associações – grupos de pessoas não consanguíneas, normalmente amigos, que moram juntos – e uma grande variedade de formas a serem definidas (HINTZ, 2007).

E, se existe um sentimento de ódio nesse contexto, quais membros poderiam se unir para revisitar modelos que prejudiquem ou afetem o grupo como um todo? Quem poderia trabalhar para efetivar pequenas e frequentes alterações que reduziriam atritos e diminuiriam o sentimento de ódio?

E, em casos mais extremos, é possível reconstruir essa dinâmica com apoio de maioria ou dos membros mais influentes? Há de se pensar também na possibilidade de mudanças mais drásticas, como inclusive a dissolução ou a mudança para fora do contexto familiar.

Entendendo o ódio à familia

Odeio minha família - Mulher gritando de raiva.
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[3] O ódio é um afeto humano inegável. Ele revela a existência de uma dimensão psíquica de destruição que pode ter como alvo o Eu e o objeto (Jeammet, 2005). Além disso, destacam-se as suas funções de auxiliar o processo de separação entre o Eu e o objeto e de manter a sobrevivência psíquica2 (Barros, 2013).

Barros (2013), por sua vez, estuda o ódio como um fenômeno paradoxal que possui uma dimensão destrutiva e, também, exerce uma função psíquica de conservação.

Essa conservação possibilita a construção da diferenciação entre o Eu e o objeto.

Ao odiar, o Eu exerce sua autonomia e sua diferença em relação ao objeto odiado. Por esta razão, portanto, relacionar o ódio apenas à destruição traria uma diminuição de sua amplitude e complexidade.

Bollas (1987/2015) aponta a existência de um ódio não destrutivo.

Em sua opinião, pouco se tem dado valor a esse aspecto positivo do ódio, pois se enfatiza a relação entre o ódio e a destruição.

O ódio, todavia, pode buscar a preservação do objeto, não a sua destruição. O que faria muito sentido em um contexto familiar, onde esse núcleo não cumpre o seu papel.

Odiar apaixonadamente o objeto seria uma forma de mantê-lo vivo. Odeia-se para manter algum grau de contato humano. Assim, o ódio amoroso seria uma defesa contra o vazio objetal e atuaria para a manutenção da vida. 

Pontalis (1991) ressalta como o ódio pode constituir uma forma consistente de relação com o objeto.

Como o ódio buscaria a aniquilação do objeto (neste artigo a família), visto que é do objeto odiado que ele, ódio, necessita? Não haveria o objetivo de aniquilação: odeia-se para manter o contato com o objeto odiado: eu ainda pertenço e estou ligado a “minha” família.

Minerbo (2009) descreve diferentes modalidades de “ódios”.

Há distintas dimensões e matizes desse afeto. Além disso, a autora apresenta uma importante distinção entre o ódio e a raiva. No primeiro afeto (o ódio), há um funcionamento psíquico onde “o Eu está ameaçado e precisa destruir a fonte de ameaça” (p. 333).

Trata-se, dessa maneira, da necessidade de destruição do objeto para que o Eu possa sobreviver. Ao passo que a raiva apresenta uma dimensão menos crua e visceral, porque se trata de uma expressão da frustração da satisfação de desejo.

Isso posto, surge a pergunta: você tem ódio ou raiva da sua família? Qual o sentimento que a organização atual gera em você? Quando essas palavras são ditas, você busca a “destruição” ou é um grito para voltar a sua construção e integração?

Finalizando

Espero que essas observações acerca do sentimento (ou afeto) ódio, direcionada à família, possa colocar as coisas em uma perspectiva dinâmica, que se altera no tempo. Que faz com que você também mude ou se mude, afinal, você passa a ser consciente dos problemas e das coisas que estão movimentando.

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Nos vemos no próximo texto. 🙂

Bibliografia:

[1] Dessen, Maria Auxiliadora. (2010). Estudando a família em desenvolvimento: desafios conceituais e teóricos. Psicologia: Ciência e Profissão30(spe), 202-219. https://doi.org/10.1590/S1414-98932010000500010

[2] Pereira Neto, Élida Fluck, Ramos, Márcia Ziebell, & Silveira, Esalba Maria Carvalho. (2016). Configurações familiares e implicações para o trabalho em saúde da criança em nível hospitalar. Physis: Revista de Saúde Coletiva26(3), 961-979. https://doi.org/10.1590/s0103-73312016000300013

[3] Pereira, Douglas Rodrigo, & Coelho Junior, Nelson Ernesto. (2019). O ódio em análise. Jornal de Psicanálise52(96), 49-62. Recuperado em 01 de maio de 2021, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-58352019000100005&lng=pt&tlng=pt.

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