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Nise o coração da loucura, repleto de amor

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Semana passada, numa tarde fria, chuvosa e despretensiosa eu liguei a TV, acessei o Netflix e escolhi “Nise: o coração da loucura”. Primeiros dez minutos de filme e eu já estava chorando, Ok, que não precisa de muito pra me fazer chorar, já falei isso aqui, né?! mas olha, fui levada pra dentro de uma outra realidade, que diga-se de passagem, eu conheço razoavelmente bem.

Hospitais psiquiátricos sempre me chamaram à atenção, seja pelo mundo particular e misterioso de cada paciente/cliente, seja pelo trabalho minucioso e cuidadoso que se deve desempenhar ali, seja pela minha própria história familiar.

Só pra vocês saberem, eu escolhi estagiar dentro de um dos grandes hospitais psiquiátricos da região de Campinas e, sim, pensei em trabalhar com isso, mas a vida nem sempre segue o rumo que a gente escolhe pra ela. E me lembro que no primeiro dia, dentro de um lugar com portões trancados a 7 chaves, um cheiro forte, pessoas de todos os tipos, eu tive medo, mas sabia que precisava continuar e hoje consigo entender o porquê.

Trailer de Nise: o coração da loucura

Ao final da minha graduação, eu vivi na pele o surto de um paciente psiquiátrico e não fosse por tudo o que aprendi nesse estágio, pouquíssimo saberia como lidar com a situação e provavelmente o curso da história teria sido outro.

Assistindo Nise, eu me lembrei da maneira como muitas pessoas “normais” olham para essas “pessoas internadas” como se elas fossem nos matar, como se fossem animais selvagens e que devem permanecer enjaulados. Algumas cenas me deram ânsia de vômito, tamanho o impacto e dor que causaram em mim. Por sorte tivemos uma reforma psiquiátrica e a luta anti-manicomial que ano após ano nos mostra a necessidade de olhar para esses pacientes, a necessidade de acolhê-los e respeitá-los em suas particularidades.

Nise não tinha medo, ela tinha amor, tinha paixão por ouvir, olhar, compreender cada pessoa. Respeitar seus limites, suas vontades, seus inconscientes. E como nos falam esses inconscientes! Ela os ouvia e pouco a pouco os compreendia e os resgatava. Que mulher, que inspiração, que privilégio termos tido sua vida dedicada à tantas mudanças dentro dos hospitais psiquiátricos.

O filme acabou, mas a luta pelo fim de tantas torturas, descomprometimento e descaso não. Meu choro não para. Respiro fundo. Reorganizo minhas idéias e me lembro que seja lá o que decidimos fazer, precisamos fazer com amor e respeito. Com esses dois ingredientes, não há como falhar e a gente integra, REintegra e soma, na força das loucuras e do amor, que tudo pode curar.

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Raquel Ferreira
CRP 6/101759 - Graduada pela Universidade São Francisco, mestre em Ciências da Saúde pela Coordenadoria de Controle de Doenças do Estado de São Paulo. Psicóloga clínica desde 2010, busca constante aprimoramento na abordagem analítica. Estudou Cinesiologia no Instituto Sedes Sapientiae, frequentou grupos de estudo e supervisão teórica na Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica de São Paulo e ainda, integrou o grupo de Neurociências do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Atualmente é doutoranda em Psicologia Social, pela Universidad Complutense de Madrid.

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