Desmistificando o Suicídio

Desmistificando o Suicídio

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O suicídio, apesar de ser mais comum ultimamente nas mídias, não é um fenômeno recente.

Registros históricos mostram que o suicídio data desde a antiguidade, no período greco-romano, quando o ato de suicidar-se era tolerado desde que a pessoa estivesse em pleno funcionamento de suas faculdades mentais.

Era vedado aos escravos por ser entendido como perda de mão-de-obra. Naquela época, o suicídio dos idosos tinha um teor honroso e altruísta. Uma vez que passavam a ser vistos como um fardo para a sociedade e para a família.

Já na Idade Média, com grande influência da Igreja, o ato passou a ter condenação religiosa e o Estado. Percebendo o quanto era prejudicado no rendimento da sociedade, passou a penalizar as famílias daqueles que se suicidavam. Na Idade Moderna, o suicídio passou a ser tema de artes, como poesias e livros.

Atualmente, com a notificação obrigatória dos casos de suicídio e de tentativas de suicídio, as estatísticas fizeram com que a suicídio virasse uma questão de saúde pública. Isso exigiu que os principais órgãos públicos pensem em políticas estratégicas de prevenção ao ato.

A evolução histórica do suicídio e a forma como as concepções sobre ele foram sendo alteradas, traz uma série de mitos e tabus para a temática. Eles tendem a distorcer a imagem da pessoa que tem comportamentos suicidas, gerando angústias e repúdios nos demais.

A disseminação de informações é o caminho para desmistificar o suicídio e fazer com que estes indivíduos sejam acolhidos e compreendidos de uma forma mais humana. Esse texto tem como principal objetivo trazer os principais mitos para debate.

Desmistificando o Suicídio

Mito 1 – Só doente mental se suicida

É muito comum que os casos de suicídio e de tentativa de suicídio estejam associados a algum transtorno mental, principalmente a Depressão e ao Transtorno Bipolar.

As estatísticas apontam que:

  • 36% dos suicídios estão associados à transtornos de humor;
  • 22% à transtornos relacionados ao uso de substâncias;
  • 12% à transtornos de personalidade;
  • 11% à esquizofrenia;
  • 16% à outros transtornos;
  • 3% sem diagnóstico prévio.

A ideia de que somente quem tem algum diagnóstico de doença mental é que se suicida, negligencia todas as vidas que não se enquadram em nenhuma categoria. Indo além, este pensamento tende a limitar o suicídio como algo exclusivo a quem tem algum transtorno mental.

Mas cabe destacar que: nem todas as pessoas que possuem alguma doença mental se suicidam. Assim como nem todos que se suicidam possuem, necessariamente, um diagnóstico psiquiátrico.

Quando fala-se em seres humanos, devemos sempre levar em conta a subjetividade e a individualidade de cada um. Não podemos generalizar os casos, mas entende-se que os transtornos psiquiátricos acarretam um maior risco de suicídio

Mas estes não são fatores obrigatórios para justificar um suicídio, uma vez compreendido a multifatoriedade que faz com que alguém tire a própria vida.

Mito 2 – Só quer chamar a atenção

As pessoas possuem diferentes formas de funcionamento para lidar com os momentos difíceis da vida. Umas falam, outras choram, outras se isolam, outras buscam atividades distrativas, entre outros.

Quando algum caso de suicídio é relatado ou mesmo em meio a multidão em uma tentativa de suicídio, sempre há alguém que fala: “ah, essa pessoa só que chamar a atenção!”.

Sim! Não é “só” para chamar a atenção como se o seu ato fosse apenas uma encenação.

Esta pessoa está tentando desesperadamente chamar a atenção e ela deve ter tentado, à sua maneira, por diversas vezes chamar a atenção para sua dor psíquica antes de chegar a este extremo.

Cada um tem um jeito de pedir ajuda e uma tentativa de suicídio deve ser vista como um pedido de socorro.

Socorro de alguém que não sabe outra forma de fazê-lo ou já esgotou todas as suas outras possibilidade e não teve nenhuma forma efetiva de retorno.

Diante disso, cabe a reflexão do quanto estamos cumprindo com a nossa responsabilidade social de olhar para o lado, com atenção suficiente para reparar em alguém que esteja precisando de ajuda.

Nem sempre a rotina nos permite ampliar nosso campo de visão, estamos sempre ocupados e atrasados demais.

O quanto estamos fazendo pelo outro?

Neste momento você pode pensar: “mas este é um assunto que, por motivos próprios, não consigo lidar!”. Ótimo! Que bom saber que você identificou seu limite, somos humanos.

Mas todo mundo pode fazer algo por alguém que está lhe revelando que precisa de ajuda. Você pode lhe indicar onde procurar um serviço de saúde, um profissional especializado ou mesmo ter na agenda do seu celular o número telefônico 188 do CVV, que é gratuito e 24 horas para crises suicidas.

Nunca devemos esquecer que o silêncio também é uma forma de pedir socorro. Olhe para o lado e, se um dia você precisar, alguém também estará lá para você.

Mito 3 – É falta de Deus

É inegável a importância da religião na vida das pessoas. Santo Agostinho dizia que o suicídio era um ato realizado por quem estava sendo influenciado pelo demônio.

Acrescido de o suicídio ser um ato condenado por quase todas as religiões. Pode-se compreender o porquê muitos acreditam que o que leva alguém a tirar a própria vida esteja relacionado a problemas em sua religião ou fé.

Recentemente as pessoas foram surpreendidas com depoimentos nas redes sociais de Padres famosos, como Fábio de Melo e Marcelo Rossi,assumindo possuir diagnósticos psíquicos como a Depressão.

Estes exemplos são padres muito conhecidos e respeitados pela dedicação e amor ao seu trabalho. Há também estatísticas que mostram um índice considerável de suicídios em pastores brasileiros.

Dito isso, como afirmar que o suicídio é falta de Deus?

Para desmistificar este mito, é necessário entender que durante uma crise suicida, a pessoa está em posse de uma dor psíquica tão intensa, que perde sua capacidade de ampliar sua flexibilidade psíquica.

Assim, a pessoa que atenta contra a própria vida, perdeu mesmo que temporariamente, a capacidade de refletir com precisão, encontrando no suicídio a única maneira de cessar esta dor tão profunda.

Mito 4 – Quem quer se mata, não ameaça

Uma tentativa de suicídio pode demorar minutos, horas e até dias. Há casos de pessoas que permaneceram por horas sobre o parapeito de um prédio até que decidisse pular.

Mas há casos em que, após uma intervenção bem realizada, tomaram a decisão em não desistir da vida. Isso deveria ser comemorado. Mas muitas pessoas acabam por entender que, quem quer se matar não ameaça.

Muitas pessoas ainda possuem a errônea concepção de que quem se mata quer morrer. Este pensamento tende a gerar preconceitos e julgamentos. Por isso a disseminação de informações é tão importante!

Na verdade, quem atenta contra a própria vida quer findar uma dor psíquica insuportável, mas não quer morrer.

Então, quando a pessoa tenta suicídio, na verdade ela tenta não morrer. E ainda busca desesperadamente formas de solucionar sua dor, que não pelo suicídio.

Mito 5 – É frescura

De acordo com o significado, frescura é a “sensação na pele causada pelo contato de coisa fria”. Podemos afirmar então que, a pessoa que esgotou todas as possibilidades e encontrou no suicídio a única alternativa para findar sua dor, se deparou-se apenas com frieza em todas as faces que tentou.

Como é possível alguém descrever como frescura o ato de uma pessoa que está tão desesperada, que prefere atentar contra um dos principais institutos do ser humano: a sobrevivência?

Quem nunca passou por uma fase tão difícil que achou, mesmo que por alguns instantes, que fosse melhor não estar mais aqui?

Na dúvida pense como gostaria de ser tratado naquela fase mais complicada da sua vida. Na dúvida, use a empatia!

Mito 6 – Falar sobre suicídio incentiva

Acreditar que falar sobre suicídio pode incitar alguém a se suicidar é um dos mitos mais antigos. Em 1774, Johan Wolgfang publicou o livro: Os sofrimentos do jovem Werther.

Neste, o suicídio romantizado do jovem teria sido inspiração para muitos na época. Passou a ser conhecido então como Efeito Werther, o efeito de contágio.

Desde então, e também por diversos outros motivos, as pessoas têm evitado o assunto como sendo um fator protetivo. As estatísticas mostram que os casos de suicídio tem aumentado a cada ano de notificação.

Isto prova que não falar sobre suicídio não tem se apresentado muito eficaz em sua prevenção.Mas será que este é o único motivo pelo qual as pessoas evitam o assunto?

As pessoas tem medo de falar sobre o que não sabem ou sobre o que as angustiam. Como vão se sentir caso alguém lhe confirme que deseja sim colocar fim a sua própria vida? Será que é possível incitar alguém a se matar?

É por este motivo que a disseminação de informações é tão importante, ainda mais em um assunto tão carregado de tabus.

Falar ainda é a melhor solução. Dar espaço para alguém expor algo que esteja lhe sufocando, permite que a pessoa entre em contato com o seu discurso e possa refletir com mais qualidade.

Permitir que alguém tenha um espaço livre de julgamentos e pré-conceitos para dar vazão a sua dor psíquica, é o melhor meio de ajudá-la a buscar outras possibilidade para seus problemas que não o suicídio.

A questão não é sobre o que falar e sim em como as coisas são ditas.

Precisamos falar sobre suicídio!

Você pode fazer a diferença na vida de alguém!

Faça sua parte e lembre-se: Quando uma pessoa pensa em suicídio, ela quer matar a dor, mas nunca a vida (Augusto Cury).

Diante da necessidade profilática em trazer a temática com suicídio para debate e ciente de que cada cidadão possui sua responsabilidade social, juntamente com uma amiga e colega de profissão, foi idealizado o Projeto Sobre[Viver] de Prevenção ao Suicídio e Promoção a Posvenção. Com a missão em disseminar informações e desmistificar o tema. Acesse nosso site, siga nossas redes, apoie essa causa. www.sobreviver.org

Setembro Amarelo - SobreViver e Morrer: por que tirar a própria vida?

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Carolina Teixeira
Graduada em Enfermagem e Psicologia, atuação em Psicologia Clínica, Aprimoranda em extensão clínica em Psicoterapia Psicanalítica Breve na Clínica de Saúde da Universidade Nove de Julho, Aprimoranda em Prevenção e Posvenção do suicídio pelo Instituto Vita Alere, certificada em Manejo do Comportamento Suicida, Idealizadora e co-fundadora do Projeto Sobre[Viver] de Prevenção ao Suicídio e Promoção a Posvenção em parceria com o Instituto Vita Alere.
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Carolina Teixeira

Graduada em Enfermagem e Psicologia, atuação em Psicologia Clínica, Aprimoranda em extensão clínica em Psicoterapia Psicanalítica Breve na Clínica de Saúde da Universidade Nove de Julho, Aprimoranda em Prevenção e Posvenção do suicídio pelo Instituto Vita Alere, certificada em Manejo do Comportamento Suicida, Idealizadora e co-fundadora do Projeto Sobre[Viver] de Prevenção ao Suicídio e Promoção a Posvenção em parceria com o Instituto Vita Alere.

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