O estupro no ônibus e a indignação que me corrói

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Eu moro num país onde a violência é bem baixa, posso andar sozinha de madrugada na rua, sem medo de alguém me perseguir, posso ir ao clube e tirar o biquíni sem que olhos me observem querendo meu corpo, posso sair pra tomar uma cerveja com um homem e no final não preciso dar pra ele e ele nem pensou nisso, garanto. Sim, eu não precisaria me preocupar com o caso do estupro no ônibus e a ejaculação no pescoço de uma moça que nem conheço, dificilmente isso acontecerá comigo, mas eu me preocupo.

Me preocupo porque tenho empatia, porque sou mulher, porque sou brasileira, porque sou ser humano, porque tenho sobrinhas, irmã, mãe, amigas…

Eu confesso que quando li as matérias falando da ejaculação no pescoço da moça, já me deu uma travada, mas pior foi a sensação ao ler coisas a respeito da decisão do juiz. A partir daí foi uma indignação, um medo do futuro, um ódio, do tipo que pouco eu costumo sentir.

Clique e fale com um Psicóloga Online agoraPensei como seria se nós, mulheres, saíssemos por aí com nossos vibradores nas mãos ou tirando a roupa dentro de ônibus, metrô, no parque, seríamos julgadas como impróprias (haja vista quando amamentamos as crias em locais públicos sem esconder os peitos), mas ejacular tá tudo bem, né?! Afinal de contas, há quem acredite que faz bem pra pele.

“Entendo que não houve constrangimento, tampouco violência ou grave ameaça”, uhum, entendemos também, senhor juiz, afinal a moça estava dormindo, nem percebeu o ato em si, só acordou com um jato de coisa gosmenta no seu corpo, tá tudo bem, próximo caso, por gentileza!

Mas, senhor juiz, o senhor sabe o que é um trauma psicológico, sabe por quanto tempo ou em que intensidade um trauma psicológico atrapalha a vida de alguém? Sabe que essa moça pode nunca mais conseguir entrar num ônibus, relaxar enquanto faz sua viagem ou relacionar-se com o sexo oposto? Isso seria o que, se não uma violência?

Ah, mas o rapaz que cometeu o ato tem problemas mentais. E daí!? Para problemas mentais, psiquiátricos e afins temos outros tipos de penas, temos intervenções eficazes que protegem a vítima e o acusado, mas pra que se preocupar, solta ele aí e depois a gente vê o que faz.

Depois, depois pode não haver tempo, depois pode não haver só um jato gosmento me acordando. Depois pode haver um corpo, pode haver um silêncio, pode haver a dor lancinante que corta a alma, a minha, a sua, a das mulheres!

Depois pode não haver tranquilidade, paz, segurança. Pode não haver confiança, pode não haver vida.

Homens, reajam a esse cenário, cresçam em maturidade e empatia. Cresçam em compreensão, em gentileza, em se pôr no nosso lugar.

Mulheres, reajam, na sororidade, na luta nossa de cada dia, na compreensão daquilo que é diferente do que você pensa, mas não importa, o que importa é a gente se defender desse machismo que mata física e psiquicamente.

Precisamos evoluir e é pra ontem! Precisamos ser um pouco mais macros na maneira de pensar. Violência não é só quando tem sangue, a violência espanca a alma e essa não tem cor, não tem consistência, a gente só sente.

Hoje meu corpo se curva diante de tanto descaso com o feminino, diante de tanta impunidade, mas eu espero, com todas as minhas forças, que um dia e que não seja tão distante, ele possa se curvar em reverência à um mundo onde eu, você e todas nós sejamos livres e estejamos seguras.

Hoje, como psicóloga, o que eu posso fazer é ajudar os homens e as mulheres que eu atendo, a serem mais conscientes e amorosos, a se ajudarem, defenderem e lutarem por direitos e respeito. Se você precisar dessa ajuda, não exite em busca-la. Juntos somos mais fortes!

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Raquel Ferreira

CRP 6/101759 - Graduada pela Universidade São Francisco, mestre em Ciências da Saúde pela Coordenadoria de Controle de Doenças do Estado de São Paulo. Psicóloga clínica desde 2010, busca constante aprimoramento na abordagem analítica. Estudou Cinesiologia no Instituto Sedes Sapientiae, frequentou grupos de estudo e supervisão teórica na Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica de São Paulo e ainda, integrou o grupo de Neurociências do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Atualmente é doutoranda em Psicologia Social, pela Universidad Complutense de Madrid.

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