madrasta o novo papel no psicoonline

Madrasta, virei uma. E agora, como faço?

10 min de leitura · 

Madrasta, uma caixa de segredos com muitos detalhes e que neste texto, tentaremos responder de maneira que ajude a compreender essa situação.

Era uma vez, em tempos muito atuais, uma mulher moderna correndo atrás de seus objetivos e, entre eles, o do grande amor.

Ela até encontra um parceiro (que não é lá um príncipe encantado) pois ela sempre soube cuidar de si mesma, afinal, é uma mulher moderna no mundo real.

Eles se casam, e, por fim, os filhos do seu companheiro vem morar com eles.

De repente, em seu “conto de fadas”, ela se vê no papel de madrasta.

Esta poderia se a história de muitas mulheres, pois vivemos momentos de grandes mudanças e possibilidades nos formatos de casamento.

Segundo o IBGE, em 2005 o número de mulheres solteiras que se casaram com homens divorciados cresceu cerca de 60%. [1]

Mas será possível ter um bom relacionamento com o enteado?

Como lidar com uma possível rejeição da criança ou adolescente?

Como lidar com a inexperiência ao lidar com crianças?

Qual é, afinal, o papel da madrasta?

Vamos falar, portanto, sobre as mulheres que vivem com os filhos do marido.

Que enfrentam diversos desafios, e que, para fazer isso sem cair no esgotamento, precisarão ter bem claro sua posição na dinâmica familiar, seus limites pessoais e saber colocá-los, para encontrar sentido nos vínculos com estas novas e pequenas pessoas que passam a ocupar seu espaço e sua vida.

A história da madrasta  (má?)

As histórias infantis estão cheias de madrastas, más.

Nestes livros ou desenhos, as madrastas são mulheres egoístas, frias, cruéis e invejosas. Uma figura estereotipada, repleta de preconceitos e conceitos na maioria das vezes, nada agradáveis.

Este mito podia ter seu fundamento na época e local onde estas histórias foram criadas porém atualmente não estão mais longe da verdade.

Alguns papéis são vistos como inerentemente bons, como o papel da mãe, dos avós, etc. Já o da madrasta, graças a esse imaginário vindo das lendas, parece já ser associado a algo muito mau.

Mas já sabemos que o papel que aquela pessoa exerce não fará dela automaticamente uma pessoa boa com atitudes boas, ou uma pessoa má com atitudes ruins.

Estamos em 2018 e a separação de casais com filhos e seus novos casamentos não é novidade.

E a madrasta, a mulher do pai, pode se encontrar em confusão por estar em um papel que não havia sido planejado.

Sem saber exatamente qual seu papel na vida das crianças ou mesmo no todo familiar (e igualmente confuso pode ficar seu esposo) logo, hoje as madrastas estão longe de serem más, e muito mais próximas de serem incompreendidas no conjunto familiar.

O papel da madrasta é um papel de adulto

A primeira coisa que precisa ficar clara é que a relação entre madrasta e enteado deve ser baseado na relação entre um adulto e uma criança.

Pode até ocorrer uma rivalidade entre os filhos do marido e a nova esposa, pela atenção dele e, essa rivalidade apenas desgastará todos os envolvidos e colocará a mulher no mesmo patamar que as crianças, o que pode minaria totalmente o respeito que é necessário existir.

A madrasta também não é mãe, nem deveria tentar substituir essa posição, mesmo no caso da mãe ter falecido ou não estar presente.

A figura da mãe deve ser preservada pelo bem estar psicológico da criança.

Mas quando se vive com filhos do marido, muitas vezes algumas tarefas, como alimentar, dar banho, colocar regras e limites, estão presentes.

Embora associadas à maternidade, estas tarefas são responsabilidade de adultos que cuidam de crianças (e isto inclui o pai das crianças, afinal ele tem uma esposa, e não uma babá).

Assim, o papel da madrasta está relacionado às responsabilidades que um adulto tem frente ao cuidado de uma criança.

Estabelecendo limites, regras, respeito e cuidados em conjunto com o pai, que deve fazer parte das decisões e cuidado.

A necessidade de o pai estar próximo da madrasta em suas decisões, e nunca alheio ou discordante, ocorre pois ajudará os filhos a respeitarem a nova companheira, uma vez que ela terá o respeito de uma figura de referência para eles.

Assimilando (mais uma) uma nova tarefa

Muitas mulheres já vivem um acúmulo de tarefas perigoso para seu bem estar: trabalham, estudam, cuidam da casa, entre tantas outras situações.

Com a entrada de crianças na rotina – uma tarefa que exige bastante física e emocionalmente – a mulher corre o risco de entrar em exaustão e perder-se de si mesma.

Exaustão por conta de muitas tarefas nos ombros de uma só pessoa pode gerar uma bola de neve onde todos os setores de sua vida serão afetados.

O estresse, pode afetar as funções psicológicas (causando irritabilidade, dificultando o pensar claramente, gerar sentimentos de tristeza, impotência, etc) e seu corpo (com alterações do sono, diminuição da imunidade, entre outros).

Para evitar isso, é preciso sempre lembrar de quem vem em primeiro lugar: você mesma.

Se uma mulher não estiver bem, como poderá dar conta de tudo na sua vida?

Uma pessoa acostumada a fazer várias tarefas tende a apenas ir abraçando novas demandas que aparecem, e quando percebe, está sufocada, atolada por tarefas que talvez não façam sentido algum para si.

E assim, quem deve determinar o tempo de se cuidar, fazer algo que goste, ir namorar, ou que for para se sentir bem, é você mesma. E, além disso, deve considerar estes momentos como prioridades.

E para fazer isso é preciso rever as prioridades da sua vida.

Fazer isso não é um egoísmo, embora possa parecer para algumas pessoas que foram criadas para sempre colocar as necessidades dos outros em primeiro lugar.

Mas é algo necessário para conseguir levar a sua vida com saúde mental, o que não significa fazer mais nada para ninguém.

Crianças demandam muita energia, paciência, e equilíbrio. Se estamos desequilibrados, a relação com crianças tende a refletir isso.

Assimilando a nova tarefa: Madrasta.

O papel da madrasta não vem com manual de instruções. Assim como nenhum outro papel.

Logo, a relação com os enteados deve ser construída de acordo com as personalidades dos envolvidos.

Algumas pessoas precisam de mais silêncio que outras, outras precisam de mais proximidade, outras não tem o hábito de guardar o que tiram do lugar, e por aí vai…

Com várias pessoas diferentes convivendo juntas pode parecer difícil conciliar todas essas formas de ser pacificamente.

De fato é desafiador, vai demandar uma dose de flexibilidade e clareza nas comunicações.

Também pode pedir um momento de reflexão, principalmente se a mulher do pai não tem filhos.

Pois ali no lar precisarão ser estabelecidas novas regras de convivência, o que pode e o que não pode ser feito, e como será a divisão de tarefas.

As crianças chegam na vida da mulher do pai, que muitas vezes não estão preparadas.

Aliás, nem as mães estão totalmente com a chegada do bebê.

Podem ser bebês, crianças ou adolescentes. E cada fase do desenvolvimento vai exigir conhecimentos e atitudes diferentes.

Se a mulher se sente inexperiente para lidar com os enteados, fazer leituras sobre disciplina positiva e as fases do desenvolvimento podem ajudá-la a pensar em soluções e formas de estabelecer regras em seu lar.

Algumas sugestões de leituras estarão no final do texto.

Pedir ajuda ao cônjuge para conhecer as personalidades de seus filhos e estabelecer uma rotina e regras coerentes também é necessário.

A Questão das Regras

Quando falamos de regras, pode vir imediatamente à nossa mente a ideia de algo chato, impositivo ou seja, não gostamos muito, mas sabemos que isso é necessário e faz parte da vida de todos.

Regras são importantes, pois as crianças estão descobrindo o mundo e seus ambientes, e com suas ações vão percebendo até onde podem ir, e vão avançando até que alguém diga que não pode continuar.

A criança que sente que pode fazer tudo sem limites, não está sendo preparada para viver bem no mundo, e quando frustrada, terá reações desmedidas.

É preciso ter isso em mente para não ter medo de ser chata.

Adultos são chatos para crianças boa parte do tempo, mas isso não anula o carinho que sentem.

Além disso, crianças precisam sentir que o ambiente é confiável e previsível para sentirem-se seguras, isto inclui a rotina do lar (atividades diárias sempre no mesmo horário) e as regras (condutas que devem ser tomadas, sem possibilidade de negociação, como por exemplo ir à escola ou tomar banho).

O ideal é ter uma conversa sobre isso junto ao pai da criança, e, se você passa mais tempo junto dos enteados pode perceber melhor as necessidades deles, mas no momento de por em prática é importante ter a atitude dos dois.

Outro ponto a ser lembrado é: colocar limites não significa punir com gritos ou violência.

Estas atitudes não deveriam estar presentes sequer nos pais.

Compreendo um pouco: as crianças

Diante da separação dos pais, é comum que os filhos tenham sentimentos negativos como culpa, raiva e tristeza.

Frente à nova união do pai, sentimentos negativos podem aparecer ou reaparecer, pois isto pode atacar a esperança que tinham do retorno ao estado anterior de sua família.

Muitas vezes estes sentimentos são direcionados à madrasta, que pode ser vista como culpada da separação dos pais ou como uma “intrusa” em suas vidas.

Como adultos deveríamos compreender bem estes sentimentos, porém nem sempre é possível, pois muitas vezes eles vêm na forma de comportamentos de ataque.

Crianças podem não conseguir se expressar bem com palavras, e por isso, usam de comportamentos como responder de forma agressiva, quebrar coisas, se retrair, chegando ao extremo de agredir alguém.

Nos comportamentos agressivos, físicos ou verbais, por exemplo, podemos entender que estão nos dizendo: eu te odeio!

E logo nos fechamos à possibilidade de compreender o que essa criança sente, afinal, ninguém quer ser alvo de ódio.

Mas nem sempre é exatamente isso.

Aqui vai um exemplo, lembrando que é apenas um cenário e nem sempre é assim:

Talvez a criança sinta que odeia a mulher do pai e aja de determinada maneira, mas faça isso por no fundo sentir culpa pela separação dos pais, por sentir falta da mãe, ou raiva do pai, etc…

Porém só consegue direcionar os sentimentos contra a madrasta, pois, tem medo de perder o amor dos pais e/ou esteja tentando “testar” os limites dessa nova pessoa em sua vida.

Quando o comportamento da criança afeta a dinâmica familiar, ou seu desempenho na escola, recomendo para a família procurar um serviço psicológico.

Não apenas para a criança, mas para todos os envolvidos, pois estes também se sentirão desgastados ou estressados.

Por fim, é preciso lembrar que nem sempre é pessoal, e muito mais provável que seja a manifestação de um conflito interno da criança.

Existem condutas que podemos ter para tentar ajudá-la a passar por isso e nos proteger, e outras vezes é necessário ajuda de um profissional.

Sugestões de Leitura: 

Livros:

  • 100% Madrasta : Quebrando as Barreiras do Preconceito – Autora: Roberta Palermo
  • Disciplina Positiva – Autora: Jane Nelsen
  • Pais Conscientes, Crianças Inteligentes – Autora: Érika Carvalho

Sites e Blogs:

Referências

[1] https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/2013-agencia-de-noticias/releases/13404-asi-ibge-mulheres-casam-mais-quando-jovens.html

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Thais Tamara
Psicóloga graduada pela Universidade Paulista, e especialista em Psicologia Hospitalar pela Faculdade de Medicina da USP.

Atuo como psicoterapeuta clínica desde 2014 em São Paulo nos bairros Vila Madalena (ZO) e Jardim São Paulo (ZN) com adultos e adolescentes, sou palestrante sobre temas de saúde mental e emocional e co-fundadora do Projeto Re-Criar, que visa a aproximação e discussão de temas psicológicos do universo feminino.
Na minha prática utilizo a abordagem psicodinâmica, que aborda os conflitos inconscientes e busca, a partir do vínculo e comunicação entre paciente e terapeuta, a superação de conflitos e o amadurecimento emocional da pessoa, para que se viva da melhor maneira possível.
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Contato: (11) 9.6797.3939
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Thais Tamara

Psicóloga graduada pela Universidade Paulista, e especialista em Psicologia Hospitalar pela Faculdade de Medicina da USP.

Atuo como psicoterapeuta clínica desde 2014 em São Paulo nos bairros Vila Madalena (ZO) e Jardim São Paulo (ZN) com adultos e adolescentes, sou palestrante sobre temas de saúde mental e emocional e co-fundadora do Projeto Re-Criar, que visa a aproximação e discussão de temas psicológicos do universo feminino. Na minha prática utilizo a abordagem psicodinâmica, que aborda os conflitos inconscientes e busca, a partir do vínculo e comunicação entre paciente e terapeuta, a superação de conflitos e o amadurecimento emocional da pessoa, para que se viva da melhor maneira possível. 06/11.843-0 Contato: (11) 9.6797.3939

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