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Aborto: vamos refletir a respeito?

4 min de leitura

Aborto, sim esse é um assunto polêmico e sim você saberá a minha opinião particular. Pensei bastante antes de escrever esse texto, porque enquanto psicóloga preciso estar atenta e cuidar para não formar opiniões, já que meu trabalho enquanto profissional dessa área não é esse, senão o de orientar e produzir reflexões acerca de determinados assuntos, para que você chegue a sua própria opinião.

Mas, enfim, ainda que ao final desse texto você descubra meu posicionamento, a ideia principal é a de fomentar uma reflexão, baseada em fatos reais e principalmente, na empatia.

Uma em cada 5 mulheres que você conhece, fará um aborto até os 40 anos.

Acredite, não adianta você esbravejar ou achar que isso é errado. Uma dessas mulheres que fazem parte da sua vida, sim, fará um aborto. O problema é que ele será ilegal, ou melhor, o problema é que essa mulher correrá risco de morte e não terá tido a chance de pensar melhor, acompanhada de um profissional capacitado, sobre querer ou não esse bebê.

Mas ela fará mesmo assim. Com sorte e pagando bastante, sobreviverá para amargar o peso do julgamento da sociedade. Se não sobreviver, amargará da mesma forma. Alguém vai julgar. “Bem feito, quis tirar uma vida…”

É, o mundo é cruel. A sociedade se acha no direito de decidir o que é melhor pra mim, pra você, pra fulana e pra ciclana. O problema é que essa mesma sociedade não nos pergunta o motivo pelo qual queremos abortar. Simplesmente abomina a ideia. Sem pensar, sem se colocar no lugar da amiga, sem tentar criar empatia, sem estudar sobre o porquê o aborto deveria ser legalizado.

Eu conheço pelo menos 5 mulheres que já abortaram. Não o fizeram felizes. Não o fizeram com tranquilidade e todas, ao me contar a respeito, sentiam medo, carregavam culpas, acreditavam que sofreriam algum tipo de punição “espiritual” pela atitude.

Não abortaram sem pensar, nem sem motivos.

Nenhuma dessas mulheres que conheço abortou simplesmente porque sim. Tinham um motivo, dois, três. Má formação fetal, gravidez indesejada, gravidez desejada, mas no momento errado, estupro, medo. Ninguém aborta porque sim. Ninguém  “abre as pernas, goza” e descarta um embrião porque sim. Pense um pouquinho.

Você já sentiu medo de algo, fez algo e depois se arrependeu? Você já fez alguma coisa morrendo de medo e depois descobriu que se tivesse conversado com alguém teria mudado de ideia ou se sentiria menos culpada pelo que fez?

A questão é essa. Hoje quando alguém aborta, vive uma das situações mais solitárias na vida. Porque não se pode falar sobre isso. Porque não há quem te oriente, quem te ajude a pensar se essa é a melhor saída, esse serviço não faz parte do pacote das clínicas clandestinas.

Se o aborto se torna legal, temos um protocolo por detrás desse procedimento.

Imagine que você foi abusada, engravidou e sua primeira atitude é querer praticar o aborto. Chega no hospital, conversa com a enfermeira e solicita o serviço. Imagine que nesse momento o aborto já foi legalizado. A enfermeira chama a psicóloga, vocês conversam, juntas buscam compreender o que esse feto dentro de você pode significar. Como você o imagina, qual o sentido dele em sua vida. De repente, pode ser que você compreenda que mesmo ele sendo fruto de uma violência, pode te trazer alegria, você pode olhá-lo com amor, com cuidado, mas você teve a oportunidade de pensar e decidir sobre isso, teve tempo, inclusive.

Você pode ser ouvida, pode refletir e ressignificar essa questão. Se o aborto fosse ilegal, você não teria tido tempo, nem oportunidade, nem cabeça para isso.

A PEC181 quer tirar o direito ao aborto, inclusive em casos de estupro, ou seja, nesse caso ele também se tornará ilegal e a mulher violentada ou carregará o fruto do ódio para sempre ou cometerá aborto sem ter podido ser ouvida, refletir a respeito, tentar ressignificar e fazer uma escolha tranquilamente.

Não legalizar o aborto não impede que ele aconteça, mas favorece a morte de milhares de mulheres, favorece a culpa, favorece a falta de controle e de cuidado com um assunto tão importante, a vida.

Pra finalizar, eu peço que você se coloque no lugar do outro, procure ter empatia, procure se imaginar em situações de desespero e por favor, pare de agir no impulso, reverberar qualquer ideia ou comportamento sem refletir a respeito, nos emburrece aos poucos e nos permite ser manipuladas.

Sim, eu sou a favor do aborto legalizado, sou a favor da vida e a favor da oportunidade de poder pensar e decidir sobre ela.

Para saber mais:

Uma em cada 5 mulheres fará um aborto até s 40 anos

Legalizar e acolher: mulheres que optam pelo aborto não são criminosas

PEC contra o aborto: um ataque aos direitos mais elementares das mulheres

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Raquel Ferreira

CRP 6/101759 – Graduada pela Universidade São Francisco, mestre em Ciências da Saúde pela Coordenadoria de Controle de Doenças do Estado de São Paulo. Psicóloga clínica desde 2010, busca constante aprimoramento na abordagem analítica. Estudou Cinesiologia no Instituto Sedes Sapientiae, frequentou grupos de estudo e supervisão teórica na Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica de São Paulo e ainda, integrou o grupo de Neurociências do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Atualmente é doutoranda em Psicologia Social, pela Universidad Complutense de Madrid.


Raquel Ferreira

CRP 6/101759 – Graduada pela Universidade São Francisco, mestre em Ciências da Saúde pela Coordenadoria de Controle de Doenças do Estado de São Paulo. Psicóloga clínica desde 2010, busca constante aprimoramento na abordagem analítica. Estudou Cinesiologia no Instituto Sedes Sapientiae, frequentou grupos de estudo e supervisão teórica na Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica de São Paulo e ainda, integrou o grupo de Neurociências do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Atualmente é doutoranda em Psicologia Social, pela Universidad Complutense de Madrid.

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