A doença de estar sempre ocupado

6 min de leitura · 

artigo original de Omid Safi traduzido por Raquel Ferreira. Ocupado? vamos falar sobre…

Faz alguns dias me encontrei com uma amiga. Perguntei como ela estava e como estava sua família. Ela virou os olhos, olhou pra cima e em voz baixa suspirou: “Estou muito ocupada… muito ocupada… muitas coisas por fazer…”

ocupado workaholic trabalhar demais

Pouco depois, perguntei a mesma coisa a outro amigo. De novo, com o mesmo tom, a mesma resposta: “Estou muito ocupado, tenho muito o que fazer.” O percebia cansado, exausto.

E isso não acontece só com os adultos. Quando nos mudamos há dez anos atrás, estávamos felizes por vir à uma cidade com bons colégios. Encontramos uma boa vizinhança, com muita diversidade de pessoas e muitas famílias. Tudo parecia muito bem.

Depois de nos instalarmos, fomos visitar um de nossos adoráveis vizinhos e perguntamos a eles se nossas filhas poderiam se conhecer e brincar juntas. A mãe, uma pessoa realmente encantadora, pegou seu telefone e começou a consultar a agenda. Passou um tempo deslizando os dedos na tela e ao final disse: “Tem um espaço de 45 minutos nas próximas semanas. No restante do tempo tem ginástica, piano e aulas de canto. Está muito ocupada.”

Os hábitos destrutivos começam cedo, muito cedo. Ocupado? seu filho?

Como acabamos vivendo assim? Por que fazemos isso com nós mesmos? Por que fazemos isso aos nossos filhos? Quando nos esquecemos de que somos “seres” humanos e não “fazeres” humanos?

O que aconteceu com o mundo onde as crianças se sujavam de barro, se perdiam no tempo e às vezes até ficavam entediadas?

crianças no computador

Que aconteceu com o mundo onde podíamos nos sentar com as pessoas que mais gostamos e ter longas conversas sobre nós mesmos, sem pressa por terminar?

Como criamos um mundo onde temos mais e mais coisas para fazer com menos tempo livre (em geral), menos tempo para refletir, menos tempo para simplesmente… ser?

Sócrates disse: “Uma vida sem reflexão, não merece ser vivida.”

Como supomos que podemos viver, refletir, ser ou convertermo-nos em humanos completos se estamos constantemente ocupados?

Essa doença de estar “ocupado” é destrutiva para nossa saúde e bem-estar. Reduz completamente nossa capacidade de concentração em quem gostamos e nos afasta de nos transformar no tipo de sociedade que tão desesperadamente desejamos.

Desde os anos 50 temos tido tantas inovações tecnológicas que nos prometeram deixar a vida mais fácil, mais rápida, mais simples. No entanto, hoje não temos mais tempo livre que algumas décadas atrás.

Para alguns de nós, “os privilegiados” as linhas entre trabalho e vida pessoal desaparecem. Sempre estamos com algum aparelho. O tempo todo.

Ter um smartphone, um tablet ou um notebook significa que deixa de haver a divisão entre trabalho e casa. Quando as crianças vão dormir, nós nos conectamos.

Uma das minhas rotinas diárias é revisar uma avalanche de e-mails. Estou constantemente enterrado debaixo de centenas e centenas de e-mails e não tenho nem a mais remota ideia de como parar isso. Já tentei diferentes técnicas: respondi só pela manhã, não respondi aos fins de semana, dizendo as pessoas para nos falarmos pessoalmente… mas seguem chegando os e-mails, em enormes quantidades: e-mails pessoais, e-mails de trabalho e até mesmo com os dois conteúdos num só. E as pessoas esperam uma resposta para estes e-mails. Agora, o resultado é que quem está muito ocupado sou eu.

A realidade é muito diferente para cada um. Para alguns, ter dois empregos em setores que pagam pouco é a única maneira de manter a família. Vinte por cento das crianças dos EUA estão vivendo em situação de pobreza e muitos de seus pais trabalham por salários mínimos, para ter um teto e um pouco de comida na mesa. Eles também são muito ocupados.

Os velhos modelos (incluindo a família nuclear com apenas o pai trabalhando, se é que isso existiu) se foram há muito tempo, para muitos de nós. Sabemos que a maioria das famílias estão separadas ou com ambos os pais trabalhando. Isso não funciona. Não tem que ser assim.

Em muitas culturas muçulmanas, quando você quer perguntar a alguém como ela vai, você diz em árabe, Kayf Haal-ik? ou em persa, Haal-e shomaa chetoreh? Como está o seu Haal?

O que é Haal? É uma palavra para obter informações sobre o estado transitório de seu coração. Na verdade, estamos perguntando: “Como está seu coração neste momento, neste mesmo instante? Quando perguntamos “Como está você?”, isto é exatamente o que queremos saber da outra pessoa.

Não pergunto quantas coisas você tem por fazer, quantos e-mails tem para ler. Eu quero saber como você está agora, nesse exato momento. Diga-me. Diga-me que o seu coração está feliz, diga-me que seu coração está doendo, que você está triste e que precisa de contato humano. Examine seu próprio coração, explora sua alma e depois me diga sobre eles.

Diga-me que você se lembra que você ainda é um ser humano, não apenas um “fazer” humano. Diga-me que você é mais que uma máquina completando tarefas. Mantenha essa conversa, esse contato. Tenha uma conversa saudável, aqui e agora.

Põe a tua mão no meu ombro, olha nos meus olhos e se conecta comigo por um segundo. Conte-me algo sobre o seu coração e desperta o meu. Ajuda-me a lembrar que eu também sou um ser humano que precisa de contato pleno com outros seres humanos.

Eu leciono em uma universidade onde muitos alunos se orgulham com o seu estilo de vida “estudar muito, compensa muito.” Este provavelmente poderia ser o resultado de boa parte do nosso estilo de vida.

Não tenho soluções mágicas. Tudo o que sei é que estamos perdendo a capacidade de viver uma vida plena.

Precisamos de uma relação diferente com o trabalho e a tecnologia. Nós sabemos o que queremos: uma vida com significado, um sentido de humanidade e uma existência justa. Não é só ter coisas. Queremos ser plenamente humanos.

celular

William Butler Yeats escreveu uma vez:
“É preciso mais coragem para espreitar os cantos sombrios de sua própria alma do que para lutar no campo de batalha.”

Como é que vamos examinar os cantos sombrios da nossa alma, se não temos tempo? Como podemos viver uma vida sujeita à exames?

Eu sou sempre um prisioneiro da esperança, mas eu me pergunto se estamos dispostos a pensar sobre como fazer e como viver de forma diferente. De alguma forma, precisamos de um modelo diferente de organização individual, social, familiar e humanitária.

crianças brincando
Crianças brincando ciranda-cirandinha. Organização social que gera diversão e faz muito bem.

Quero que meus filhos fiquem sujos, que sujem tudo e até mesmo que fiquem entediados. Quero ter um tipo de existência em que podemos parar por um momento, olhar para os olhos das pessoas, tocar um ao outro e perguntar como está seu coração?. Eu estou tendo tempo para refletir sobre minha própria existência; estou suficientemente em contato com meu próprio coração e alma para saber como me sinto e sei como expressá-lo.

Como está o seu coração hoje?

Deixe-me insistir em uma espécie de conexão humano a humano, na qual quando um de nós responde “estou muito ocupado”, podemos responder: “Eu sei. todos nós estamos, mas eu quero saber como está o seu coração. “

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